Libertação e (anti)psiquiatria

Tenho lido sobre antipsiquiatria, embora eu não concorde com tudo. Peguei Loucura e Civilização do Foucault para ler e estou procurando mais obras sobre o assunto. Talvez eu leia Thomas Szasz, mas sei que não vou concordar com tudo o que ele diz.

Eu me identifico mais com o subgrupo "terapia pode funcionar quando não é coerciva, mas a psiquiatria em geral não é benéfica" do que com antipsiquiatria em si, até porque muitas pessoas antipsiquiatria pensam que existe uma conspiração de médicos que querem diagnosticar todo mundo com alguma coisa pra fazer dinheiro, e eu não acho que isso exista. Existe a indústria farmacêutica, que, para fazer lucro, faz de tudo para aprovar remédios potencialmente perigosos de um jeito rápido e sem testes suficientes. Também existem médicos que não clinicam bem, que confundem transtornos, e passam um remédio qualquer sem pensar no que ele pode trazer de ruim.

Existem muitos outros problemas de ordem estrutural e social dentro da psiquiatria também. Alguns transtornos são baseados em gênero e usados para tirar agência de mulheres (mais especificamente o borderline e o histriônico), ou então transformar alguém em um "potencial" criminoso (o antissocial). A psiquiatria criminal (e toda "ciência criminal", por extensão) não vale nada também.

Uma coisa que me fez pensar são meus próprios diagnósticos e a relação deles com causas exteriores à biologia. Todos os sintomas de borderline (e transtorno de estresse pós-traumático, que eu tive mas entrei em remissão) têm relação com resposta a algum trauma, resposta essa que é muito natural em todos os sobreviventes, mas que por alguma razão, é tornada patológica e transformada numa doença "sem cura". Ora, é claro que não tem cura: trauma não é curado com remédios. Eu tenho ciclos de humor por conta do bipolar, mas isso não é do nada, é sempre influenciado por acontecimentos externos, assim como a dissociação (que também pode ser causada por remédios!).

Mas eu não posso generalizar e dizer que todo transtorno mental é gerado por fatores externos à biologia. Mas se esses fatores biológicos existem, eles não são "diabetes cerebrais de serotonina", como é dito correntemente. Não existe prova de que depressão é ligada à falta de serotonina, ou à falta de qualquer neurotransmissor (fonte, em inglês).

Dentro desse movimento existe uma ideia de que transtornos mentais são formados por trauma e/ou opressão, que são partes de uma doença social maior (o capitalismo). Isso faz sentido ao se pensar na "herdabilidade" de transtornos mentais: um pai ou guardião que tem um transtorno mental passa esse transtorno para seu filho não (só?) por conta de genética, mas por conta de trauma intergeracional: se esse pai ou guardião passou por um trauma e não sabe lidar com isso, a criança também passará por algum trauma devido à maneira em que será criada. Um pai que sofreu com negligência dos próprios pais, não teve noção disso e acha que esse é o jeito certo de criar um filho, vai ser negligente com o filho, por exemplo.

Meu terapeuta atual disse que ele não quer suprimir sintomas, diferente da psiquiatria. Ele quer entender a origem deles. Acho que isso é algo mais da psicanálise mesmo, porque os comportamentais com quem eu passei não buscavam a origem, eles buscavam uma solução temporária e tinham fé que a medicação fosse uma solução permanente.

Não tem como medicações serem soluções permanentes: benzodiazepinas causam amnésia e adicção, antipsicóticos, que não agem em sintomas psicóticos mas sim são simplesmente tranquilizantes, são ligados à perda de volume no cérebro (fonte, em português) e antidepressivos são basicamente estimulantes mais caros. Sem contar que médicos não sabem como uma parte dos remédios funcionam. A bula da trazodona diz isso com todas as letras: "não se sabe como a trazodona age no cérebro".

Não acho que remédios sejam completamente inúteis ou mais destrutivos do que positivos. Acho que depende da pessoa, acho que depende dos sintomas, enfim. Antidepressivos não funcionam comigo, mas funcionam com outras pessoas.

O discurso de que transtornos mentais são deficiências biológicas não encoraja as pessoas a se conhecerem melhor, e normaliza a transformação de comportamentos desviantes em patologias. Se ser gordo já foi quase considerado um transtorno mental mas acabou não sendo incluído no DSM-5 (fonte, em inglês), assim como ser gay já foi e atualmente ser trans e assexual são, isso pode ser indicativo de que muitos dos comportamentos listados no manual diagnóstico podem ser naturais, apenas desviantes das normas sociais.

Enfim.

Com isso tudo eu posso dizer que comecei o processo de me libertar dos meus diagnósticos. Sou uma pessoa inteira e não preciso dos rótulos porque eles não representam meus problemas, e sim a visão que uma sociedade que transforma tudo em patologia tem dos meus problemas.