Minha vida com John Constantine

ou: um breve memoir sobre um vinculado

Na primeira vez que eu ouvi falar em John Constantine, eu tinha dez anos. Ele era um personagem num filme, interpretado pelo Keanu Reeves. Eu queria porque queria ver esse filme, por mais que não gostasse de filmes de terror e não tivesse idade para entender a complexidade da história dele. Minha mãe me levou ao cinema para ver o filme, e eu me apaixonei.

Comecei a pesquisar a respeito do personagem, e descobri que ele não era exatamente parecido com o Keanu Reeves. Isso não me incomodava, e eu fiquei feliz ao saber que tinha mais história do que apenas o filme. Eu não tinha acesso às edições da HQ, mas lia sobre elas em fansites e sites de notícias, e mesmo depois que eu mudei de fandom, eu não esqueci Constantine. Eu podia escutar rock japonês e ler mangás, mas no meu HD sempre tinha espaço para imagens do loiro do capote.

Eu cresci um pouco mais e comecei a entender a história dele, e sempre me identificava com alguma coisa, fosse a rejeição da família, fosse o azar em certos assuntos, fosse a impulsividade e comportamento autodestrutivo. Eu admirava a força que ele tinha para passar por tudo o que passava, e eu queria ser como ele.

Mais do que um personagem que eu gostava, a partir de um ponto John se tornou meu guia ​​— com algumas ressalvas: eu não bebia tanto quanto ele, embora fumasse o mesmo tanto aos meus quatorze anos.

Constantine me ajudou a lidar com muita coisa. Quando eu não tinha amigos com quem falar, eu lia as HQs dele. É certo que as lições dele são sempre um pouco deturpadas, mas ainda eram úteis para mim. Agir com frieza frente a tudo e não se deixar abalar, guardar tudo para si mesmo e descontar nos cigarros, álcool e demônios... É natural que eu tenha crescido com a mentalidade que cresci, sempre destrutiva, sempre com a impressão de que ninguém se importava. Porque ele é assim.

Em 2014, quando a série Constantine saiu, eu me senti uma criança numa loja de doces. Vi o piloto que vazaram tantas vezes que, quando o oficial saiu, eu já tinha decorado as falas. Tudo na série me animava. Ela era o meu refúgio, um que eu desesperadamente precisava porque não sabia mais como lidar com os meus arredores.

Então a série foi cancelada depois de menos de uma temporada.

Para ser sincero, eu não sei exatamente o que aconteceu comigo depois disso. Eu sei que não foi porque Constantine foi cancelada que eu atentei contra minha própria vida, mas sei que isso ajudou.

O que ninguém sabe é que quando eu estava no hospital, lutando para respirar sozinho, eu senti o momento em que eu me tornei John, o momento em que ele se tornou parte de mim.

Eu fechei os olhos para não ver o tubo no meu pescoço. Quando abri outra vez, eu não estava mais naquele hospital, e eu não era mais Mac. Eu era John Constantine, e eu tentava salvar a vida de outra pessoa com a minha respiração.

Quando voltei a mim, quando voltei a ser eu, já era outro dia e eu estava de volta na cama de hospital, amarrado, um tubo no meu pescoço.

Eu estava fraco e confuso — não pelo que quer que tenha acontecido antes, mas porque eu ainda estava quase morrendo — e sozinho, no escuro. Mas eu só estava sozinho até o momento em que fechava os olhos: bastava ficar no espaço entre dormir e despertar que eu me encontrava no meu mundo interno, com John. Fosse visão, alucinação, delírio, não importava. Era o que me dava força. E eu sobrevivi.

Apenas anos depois eu fui identificar isso tudo como um processo de vinculação, e anos mais fui aceitar que eu era um sistema median. Até então, Constantine era apenas um pensamento que tinha me dado força para sair de uma situação ruim.

Hoje, sendo parte de mim, ele sempre me ajuda a sair de situações ruins. Capote e arrogância, mas um pouco mais gentil.