Avisos de conteúdo
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Este texto discutirá diversas formas de opressão, especialmente cissexismo e capacitismo, e identidades controversas de forma que irá incluir menções a abuso, a pedofilia, a (outros) atos criminosos e a trauma e suas consequências. Não haverão relatos muito detalhados ou específicos, mas situações de vulnerabilidade serão mencionadas.
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Por conta de várias das identidades discutidas no texto serem, ao menos no momento atual, bastante entrelaçadas com comunidades radqueer, isso significa que a maior parte dos links sobre o assunto irão para versões arquivadas de blogs, sites ou documentos radqueer. Para quem não sabe do que o termo se trata, ele será explicado mais pra frente (tenha em mente o item anterior).
Este texto contém três tópicos principais:
- A identidade transespécie e como ela se encaixa em um mundo antitransgênero;
- A co-optação das identidades transgênero e transespécie para afirmar toda e qualquer forma de “transidentidade”;
- O uso de identidades que começam com o prefixo trans- além de transgênero para mobilizar pessoas a atacarem pessoas transgênero.
Para quem nunca teve contato com nenhum desses termos: eles serão explicados nas sessões relevantes, com a exceção de transgênero.
A definição de transgênero que estou usando aqui é a de alguém cuja identidade de gênero autodeclarada (com base em sua percepção interna sobre identidade de gênero) difere em qualquer grau do gênero que tal pessoa foi imposta ao nascer, e que se considera transgênero. Isto é, alguém que foi declarade “menina”/“mulher”/“do sexo feminino” ao nascer e que se percebe como homem pode se dizer homem transgênero; mas se alguém com esse mesmo gênero atribuído ao nascer se perceber como demimulher, tal pessoa ainda pode se dizer transgênero, porque ser demigênero não faz parte da identidade imposta à pessoa.
Para quem se identifica com alguma identidade com prefixo trans além de transespécie, transgênero, transexual, transexo e transexpressive: peço que tenham em mente que tentarei, na medida do possível, não deslegitimar experiências de disforia atípica, pluralidade, abuso ou qualquer (outra) forma de neurodivergência. Meu problema principal com tais identidades é o uso do molde transgênero (não só do prefixo mas também de conotações que cercam a identidade) aplicado a toda e qualquer situação sem consideração com as dinâmicas sociais envolvidas serem diferentes.
Eu reconheço que o mundo possui nuances, e isso significa que não vim fazer um texto só para apontar o quão ridículas são pessoas com experiências diferentes das normas sociais. Eu sou xenogênero, opto por ser tratade pelo uso de neolinguagem e sou autista; sei como é irritante tratarem parte da minha experiência como uma futilidade infantil. Caso alguém chegue ao final deste texto e opte por continuar se chamando de transautista/transpadeire/etc., bom, a escolha nem é minha, mas a questão é que eu sou contra isolar alguém sem base em alguma atitude ativamente nociva (ou em encorajamento a participação em tal forma de atividade).
Além disso, eu vou mencionar alguns conceitos que são relativamente comuns em discussões de pluralidade e não-humanidade, mas que não menciono tanto nos textos deste blog. Eu vou tentar fornecer links e explicações, mas é possível que alguns dos termos tenham que ser pesquisados. Esta lista de vocabulário alterumano pode ajudar.
Pessoas transespécie não estão usando um termo inapropriado
Transespécie é um termo usado dentro de comunidades otherkin ou, mais amplamente, alterumanas, geralmente por pessoas que buscam transicionar fisicamente para ter aspectos corporais não associados com a espécie humana; não há a necessidade de usar o termo para falar de uma identificação pessoal (“interna”) como alguém que não é humane porque termos como otherkin, therian e não-humane já posuem tal conotação. Aqui está uma discussão em r/otherkin, a qual demonstra que opiniões acerca do termo não são uniformes. Othercon 2021 teve um painel sobre o termo, apontando sua história, a controvérsia acerca do termo e a correlação de pessoas transespécie com pessoas transgênero, entre outras questões, para quem quiser se aprofundar mais.
Algo notável dentro de comunidades alterumanas mais conectadas com questões de justiça social é o quanto são pessoas que tentam ser extremamente respeitosas com grupos marginalizados. Termos como “membros fantasmas”, “identidade de espécie” e “disforia de espécie” só são usados em contextos onde não faz sentido cunhar termos completamente diferentes para experiências adequadamente categorizadas como tal, e muitas pessoas até evitam tais termos por receio de estarem se apropriando de termos que não deveriam.
Comunidades alterumanas possuem uma relação de longa data com a ideia de expressar bem aspectos de suas identidades via relatos ou arte. Quem quer saber mais sobre alterumanidade não deveria estar perguntando isso para comunidades queer, trans ou xenogênero, mas sim indo em Alterhuman Archive e lendo sobre tais experiências do ponto de vista de quem as tem. Existe um nível de ceticismo entre membres mais velhes, especialmente agora que virou moda/meme falar sobre tipos de kin (que originalmente era um vocabulário só discutido em termos de identidades não humanas e/ou fictícias involuntárias, de forma geral) como se fossem gostos ou estéticas, mas uma pessoa que é capaz de se expressar o motivo de ser glitch ou sereia vai ser menos questionada em espaços otherkin/alterumanos amplos do que alguém que só diz ser ume cachorre ou ume elfe “porque sim”.
É uma organização social bem diferente de comunidades trans ou não-binárias, que pendem mais ou para um lado de “tudo bem você dizer ser o que quiser” ou para um lado de “só existem essas identidades aqui e o resto não será reconhecido e ponto”. Por um lado, não é ideal só “aprovar” a identidade de uma pessoa se ela for capaz de descrever suas experiências de forma elaborada; por outro, não só há mais abertura para quando alguém quer introduzir alguma identidade incomum, como isso também dá uma garantia maior de que a pessoa sabe do que está falando, enquanto não é incomum se deparar com pessoas mudando de ideia sobre suas identidades de gênero a um ponto que há identidades que viram alvos de ódio só por terem “enganado” pessoas que as adotaram sem compreender seus significados.
Meu ponto é que se pessoas fora da comunidade transespécie forem capazes de ignorar a raiva pelo suposto desrespeito a identidades transgênero e, ao invés disso, forem atrás de informações e experiências providenciadas por quem é transespécie, elas vão perceber que há não só questões verdadeiras de disforia e identidade pessoal que afeta pessoas transespécie, como há também uma comunidade capaz de publicar elaborações, discussões internas, modelos, compartilhamento de recursos e muito mais.
O argumento de identidades transespécie terem que ser empurradas para debaixo do tapete para que pessoas transgênero não sejam confundidas com elas não só é falacioso como também é egoísta. É querer que outras pessoas parem de viver suas identidades para o suposto bem de outro grupo, sem nenhuma efetividade concreta (porque tais identidades já possuem quase nenhuma visibilidade). A base para a retirada de direitos transgênero nunca foi visibilidade alterumana (ou de pessoas não-binárias com gêneros pouco aceitáveis para quem é cissexista), e sim o pânico moral de pessoas cisgênero centralizado principalmente em mulheres transgênero e homens transgênero. Não dá pra parar a vida de todo mundo fora das normas até que pessoas que só consomem notícias pelo WhatsApp finalmente aprendam que ter nome e tratamento respeitados não é fetiche e que a mamadeira de piroca não é real, e eu recomendo que comunidades transgênero também fiquem atentas a desinformações similares sobre alterumanidade (o que inclui não levar em consideração algume adolescente no TikTok explicando certa identidade de forma resumida e limitada como a verdade absoluta sobre como é certa comunidade).
Pautas transespécie acabam por se entrelaçar nas pautas transgênero, em questão de liberdade do que fazer com o próprio corpo independentemente de outras pessoas considerarem que isso está “estragando um corpo perfeitamente bom” (para quem não vive nele), e da liberdade de tratamento. Não, uma pessoa não vai chegar em um ambiente qualquer e exigir imediatamente ser tratada como personagem tal, alienígena ou animal não humano, mas é interessante o quanto presencio um medo de ter que se adequar a tratar alguém da forma que pede “mesmo sem parecer” membre de tal identidade que também é expressado por pessoas argumentando contra a autodeterminação da linguagem pessoal.
Espécie e sexo também são ambos conceitos mais sociais do que naturais, ainda que sejam pregados como naturais e fixos. Não é possível definir um sexo de forma que inclua precisamente todas as pessoas que devem ser catalogadas como tal sexo e exclua precisamente todas as pessoas que não devem ser catalogadas como tal sexo, e o conceito de espécie tem o mesmo problema. Geralmente, se define espécie como um grupo que pode se reproduzir entre si e gerar seres férteis, mas artigos como este apontam questões que complicam isso, como identificação de fósseis de animais extintos e animais caninos muitas vezes conseguindo se reproduzir entre si mesmo sendo obviamente de espécies diferentes. Tanto pessoas transespécie quanto pessoas transgênero criticam o uso de corporalidades para invalidar suas experiências internas ou criar delimitações arbitrárias e imutáveis.
Agora, obviamente, as questões transgênero e transespécie não são equivalentes em outros quesitos. Várias pessoas transespécie argumentam que, embora não tenham uma identidade normalizada, não sofrem com opressão sistêmica, com todos os problemas pelos quais passam sendo justificados como capacitismo mal direcionado, opressão religiosa mal direcionada ou outra questão nessa linha. Isso faz sentido: cirurgias cosméticas perigosas não são tão limitadas quanto cirurgias de afirmação de gênero para pessoas que não foram impostas tal gênero (ainda que provavelmente também não sejam muito pesquisadas), e, com a exceção de questões que podem ser justificadas por meio de outra forma de opressão, não houve nenhum episódio de discriminação legal, genocídio ou aprisionamento em massa de pessoas transespécie ou alterumanas.
Porém, mesmo não argumentando que são oprimidas, pessoas transespécie são alvos das inseguranças de pessoas que projetam estereótipos datados de “SJWs estraga-prazeres de Tumblr que veem opressão em tudo e constantemente chamam a atenção para isso” em cima da identidade transespécie. Acredito que ao menos parte disso tenha a ver com paralelos entre as duas causas, o que imagino que seja muito aterrorizante para pessoas alinhadas com o transmedicalismo que “só querem ser homens/mulheres normais”. Mas isso não deveria ser um problema para pessoas menos ignorantes e inseguras.
A banalização das “transidentidades”
[Para facilitar a compreensão, vou usar aqui o termo transID para denotar identidades além de transespécie e transgênero que usam o prefixo trans com a mesma conotação: da pessoa se ver como algo diferente da imposição social presumida da pessoa ou questão identitária similar, excluindo assim termos como transferência ou transparente. Também existem os termos transexpressive (alguém com uma expressão de gênero fluida, sendo que um dos motivos do termo não ser popular é provavelmente a dificuldade de entender do que se trata com base no nome), transexo (alguém que quer transicionar ou transicionou em questões de características sexuais sem isso necessariamente ter a ver com gênero) e transexual (termo parecido com transgênero mas com uma conotação mais forte em cima de transição física), que também não incluo dentro dessas transIDs por não serem usados com es mesmes conotações e contextos em comparação com termos discutidos nesta seção. A própria comunidade usa o termo transID, então não sei bem de que outra forma eu poderia me referir a tais identidades, mesmo que quem use tais termos defenda o uso de todas as identidades de prefixo trans como transIDs.]
No entanto, alguns grupos pela internet não aplicam nem as pautas da comunidade transgênero e nem as autorreflexões da comunidade transespécie para cunhar seus próprios termos de prefixo “trans”. São comunidades que geralmente giram em torno de usar “trans” não para significar uma identidade interna que possuem e que provavelmente gostariam de externalizar, mas sim para dizer que “deveriam ter nascido/ser algo, mesmo não sendo”.
Eu juro que essa definição não tem a ver comigo minimizando a identidade alheia como inerentemente “menos trans”. É só conferir as definições de termos como transredditor (“alguém que acha que deveria ser / quer ser / se identifica como usuárie do Reddit”) ou transequestradore (“quando você gostaria de ser ume sequestradore mas provavelmente nunca sequestraria alguém na vida real ou era ume sequestradore em sua vida passada”).
Está aí meu primeiro problema: poderiam ter usado qualquer outro prefixo, como algo relacionado com desejo, interioridade ou expressão, mas usaram justamente um que já tem a conotação de A) ser um grupo oprimido por ter sido criado com uma expectativa identitária diferente do que a pessoa é ou de B) ser um grupo ativamente indo atrás de processos de transição.
O termo é adequado?
Em um documento criado para defender a comunidade radqueer, cujos dois pilares principais são a defesa de parafilias e de transIDs, há a explicação de que as causas para se ver dessas formas tem a ver com disforia, pluralidade, tipo de kin ou afins; porém, há também uma pesquisa citada demonstrando que mais de 50% das pessoas usam ao menos uma transID “por diversão”, e mais de 30% usam porque “o rótulo soa legal” [as porcentagens apontam para uma pergunta de múltipla escolha, sendo a resposta mais escolhida “porque há sentimento de que deveria(íamos) ser/ter sido isso” com mais de 91% das pessoas a marcando].
Este documento também argumenta que não faz sentido usar termos diferentes quando usar termos transID é mais simples e fácil. Eu concordo que só fazer um novo termo para dizer que é “a versão limpa” do termo original tende a ser fútil, porque não é como se fosse possível impedir alguém abusive de usar certo termo; porém, meu contra-argumento é que as piores partes das transIDs são o estigma radqueer que carregam (embora isso possa mudar eventualmente) e o uso inapropriado do conceito de “ser trans”.
Em relação a transequestradore e termos similares: em geral, pessoas que cometem crimes não querem ser tratadas como criminosas o tempo inteiro (o que é até contraproducente no caso de pessoas que sobrevivem na base disso). Além disso, de forma geral, ser “cissequestradore” não seria uma identidade, e sim um ato, além de ser um ato pesado e violento.
Alguém que tem exomemórias (termo usado para pessoas que possuem memórias de um evento que nunca aconteceu, geralmente por conta de questões de pluralidade e/ou alterumanidade) ou noemata (termo que não se refere apenas a memórias, mas a quaisquer impressões de ter passado, estar passando ou vir a passar por alguma coisa mesmo que o corpo não tenha experienciado isso) pode experienciar de alguma forma a questão de ter sequestrado alguém, e falar de tal forma não dá a impressão de que a pessoa quer cometer o crime ou está tentando se colocar como fodona de forma que só fica parecendo insensível.
As respostas a uma pergunta sobre o assunto no Tumblr (“se alguém é transnazista por sentir internamente que é nazista, isso não faz da pessoa nazista?”) mencionam a questão de pensamentos intrusivos e de fetiches. E aí eu levanto a questão: vale a pena usar esse enquadramento de ser uma identidade que a pessoa “sente que deveria ser”, com um termo que carrega a ideia que a pessoa se vê dessa forma e quer ser reconhecida socialmente como tal, só para poder reunir experiências fetichistas, de pensamentos intrusivos e de noemata em um único termo, quando lidar com tais questões provavelmente será diferente para cada caso, e quando explicar tais experiências em detalhes provavelmente resultaria em mais compaixão e compreensão do que se dizer “transnazista” ou “transequestradore”?
Xenogêneros se chamam assim porque são formas de descrever identidades de gênero. E, mesmo assim, é comum pessoas descaracterizarem xenogêneros como traços de personalidade, expressões estéticas, tentativas fúteis de se rebelar contra imposições de gênero ou adolescentes cis tentando se apropriar do conceito de ser trans e/ou não-binárie. O quanto, então, é viável esperar que pessoas entendam que identidades usando o prefixo trans e chamadas de transIDs nem devem ser presumidas como o mesmo tipo de identificação intrínseca que transgênero ou transespécie?
Quero ressaltar que pessoas transgênero e transespécie geralmente não consideram suas identidades fetiches, impressões sobre vidas alternativas/passadas que não fazem parte de suas vidas atuais ou questões que causarão dano a outres caso forem atrás de transicionar. Eu não digo isso para invalidar as experiências de quem opta por usar terminologia transID, e sim para questionar a escolha do prefixo trans para expressar tais questões.
Em adição a isso, pessoas transgênero ou transespécie não têm como se tornar cisgênero ou “cisespécie” (termo que não seria apropriado para descrever quem não é transespécie pela existência de não-humanes que não adotam o termo transespécie), por conta do quanto tais identidades são baseadas em quebrar imposições culturais. Enquanto isso, uma pessoa que se diz transautista pode passar a ser “cisautista” por obter um diagnóstico, e uma pessoa transabusada pode passar a ser “cisabusada”: tais eixos identitários não são coerentes com os mesmos processos de (des)identificação.
O problema da conflação
Um dos documentos que linkei também explica que não é porque pessoas estão falando de transidentidades e de cisidentidades que isso configura uma dinâmica de privilégio e opressão. Embora isso seja verdade, a questão é que não é isso o que presencio de comunidades transID. Por exemplo:
- Aqui está alguém intersexo recebendo uma acusação de transmisia por “não incluir pessoas transintersexo” e aqui está uma postagem colocando que o desconforto do uso de cis para definir quaisquer pessoas que seriam “cisID” tem a mesma conotação da rejeição do termo cis por pessoas cisgênero;
- Embora este Carrd sobre tracialidade/diarracialidade justifique tal identidade como uma questão interna causada por motivos como os já citados (pluralidade, tipo de kin, neurodivergência, vidas passadas) e fale sobre pessoas não terem culpa de ter tal percepção e serem capazes de só se aproximar de culturas com as quais não cresceram de formas respeitosas e apreciativas considerando a raça que a pessoa é vista, esta pesquisa sobre transição racial contém respostas que indicam que assim como uma pessoa transgênero tem o direito de mudar seu corpo e de mentir sobre sua história de vida por questões de segurança, pessoas diarraciais também deveriam poder fazer isso (ainda que não sejam a maioria), e aqui está um exemplo de postagem igualando argumentos antitransgênero a argumentos antitransetnia;
- Perfis de usuáries de transIDs geralmente não colocam distinção entre suas cisidentidades e transidentidades que são relacionadas a dinâmicas de privilégio/opressão ou que não são (embora eu tenha visto algumas pessoas separarem por categorias como identidade de gênero, pluralidade e neurodivergência). Eu não quero linkar exemplos de blogs aleatórios listando suas identidades ou ser específique demais, mas, como um exemplo, achei uma pessoa citando cisyandere (yandere sendo um arquétipo comum em animês/mangás) junto a ter certas neurodivergências “de forma cis” (ex.: cisautista), enquanto outra pessoa cita algumas identidades de gênero e uma identidade transgênero numa lista que também contém identidades como transirmão.
Obviamente, eu não acredito que todas as pessoas usando transidentidades tenham as mesmas crenças sobre o assunto. É possível que alguém esteja colocando suas identidades na mesma lista sem crer que seus pesos sejam iguais, e é possível perceber pelos links que passei que nem todas as pessoas em comunidades a favor de transIDs acreditam que criticar termos como transredditor seja o mesmo tipo de manifestação opressiva que ocorre quando alguém critica a ideia de ser transgênero.
Porém, novamente: o uso do prefixo trans acaba convidando tais comparações de forma que não aconteceria se a comunidade tentasse se formar em cima de outra proposta.
Mesmo que os termos traça (como abreviação de transraça) e diarracial tenham sido cunhados para separar o conceito da apropriação do termo transracial (que já tinha o significado da indicação de uma experiência de ser adotade por uma família de raça diferente), ainda há uma associação com a ideia de “ser transgênero, mas em questão racial”. O mesmo vale para termos como multimoda (alguém que gostaria de fazer parte ou que se vê como alguém que faz parte de diversas estéticas ou tendências de moda) ou permabanheira (alguém que sente que deveria estar sempre em uma banheira e/ou tomando banho em uma): estes termos não são enganosos ou confusos por si só, mas suas associações com transIDs podem acabar resultando em estigmas indesejados e/ou inapropriados.
As pilhas de termos
Assim como acontece atualmente em certas comunidades não-binárias, há pessoas que cunham ou “colecionam” termos por diversão. No caso de identidades de gênero ou orientações, isso acaba não importando muito: uma pessoa não-binária será não-binária independentemente de quantos termos achar apropriados para si, e uma pessoa heterodissidente ainda será heterodissidente dentro da mesma lógica.
O problema de colecionar transIDs é que esta categoria não é indicadora de quaisquer questões. Existem comunidades transID, e comunidades menores que abrangem certas transIDs, mas a questão é que as conotações de termos como traça/diarracial, transequestradore e transemo (“quando você se identifica com ser emo sem se vestir ou realmente ser emo”) possuem conotações e ramificações completamente diferentes entre si.
É possível imaginar que quem esteja adotando transIDs por diversão/gostar dos termos (e não por noemata, disforia, trauma ou afins) esteja só adotando termos menos pesados por conta disso, como transemo ou transredditor. Mas a comunidade tende a incentivar o uso de transIDs para qualquer coisa que a pessoa quiser, borrando a linha entre desejos relativamente comuns para os quais pessoas geralmente não usam termos específicos para descrever, identidades involuntárias mas que podem ser afirmadas sem machucar ninguém e descrições de memórias ou desejos involuntáries acerca des quais a afirmação identitária pode nem ser desejada, e, se for desejada, só será segura por meio de roleplay ou similar.
Em tais meios, não parece haver muito incentivo a questionar quantos desses termos usados realmente beneficiam alguém com um senso de entendimento e comunidade, ou o quanto só incentivam a hipervigilância contra pessoas que são contra transIDs num geral e a conflação possivelmente danosa de pensamentos intrusivos com senso de identidade pessoal. Também tenho minhas dúvidas sobre o quanto pessoas não estão indo atrás de entendimentos mais profundos sobre si mesmas por estarem confortáveis em ser, por exemplo, transautistas ou transTEPT e não sentir a necessidade de saber se na verdade essas identidades seriam “cisIDs” ou de, no caso das pessoas diagnosticadas mas que usam o prefixo trans para indicar que queriam “parecer mais com seus neurótipos”, estão se minimizando por não cumprirem certos estereótipos. Eu não vou presumir o quanto pessoas se sentem apegadas ou são encorajadas a se apegar a tais identidades, porque é perfeitamente possível não ver tais identidades como obrigatoriamente permanentes mesmo as considerando experiências verdadeiras, mas é muito mais fácil achar gráficos de orgulho, positividade e comparações entre sentimentos antitransgênero e antitransID do que pessoas questionando até que ponto o uso de transIDs pode acabar incentivando retórica inapropriada.
Os termos alternativos
Novamente, eu não estou aqui para obrigar ninguém a nada. Se, após ler tudo isso, uma pessoa ainda preferir usar termos associados com transIDs ao invés de especificar que questões levaram a pessoa a se ver como tal, esta é uma opção, ainda que ela tenha consequências sociais. Como falei, eu entendo os sentimentos por trás de boa parte desses conceitos, com minha crítica principal ser o enquadramento da maioria dessas identidades como ligadas ao conceito de trans como usado no termo transgênero.
- Alterumanidade, como já mencionei, cobre uma série de conceitos relacionados com não se ver como humane, com querer transcender humanidade, com se identificar como personagens de ficção e/ou com a existência de múltiplas consciências em um corpo só. Vocabulário alterumano também contém formas de falar sobre vidas passadas/alternativas;
- Altersexo, aldérnique e termos sob tais guarda-chuvas (1, 2) cobrem questões que alguém pode querer colocar como seus corpos verdadeiros e/ou ideais. Por exemplo, tanto alguém que sente disforia por não ter olhos vermelhos quanto alguém que tem olhos vermelhos em seu espaço mental podem se dizer aldérniques, independentemente de usarem lentes de contato vermelhas em seus corpos físicos ou não;
- Dissódique descreve alguém que tem uma desconexão involuntária que causa alguém a acreditar que é ou deveria ser algo que difere de suas identidades ou experiências corporais. O ponto é cobrir pessoas que, por conta de disforia, neurodivergência, alterumanidade ou afins, possuem alguma experiência coerente com o que transIDs pretendem cobrir, mas sem associações com comunidades radqueer, pessoas acumulando transIDs “por diversão” e pessoas colocando identidades transID como equivalentes a experiências transgênero;
- Intenxper (alguém cuja conexão com um conceito é tão forte que passa a ser parte da pessoa), arquetropo (identidade alterumana baseada em arquétipo/tropo/papel que pode influenciar diversos aspectos na vida da pessoa) e xenonatureza (conexão forte com um conceito a ponto da natureza da pessoa ser influenciada por ele) descrevem formas de identificação com arquétipos, interesses, estéticas ou afins de formas que não são necessariamente involuntárias ou apenas questões internas, enquanto vior descreve especificamente comportamentos atípicos que podem ser ligados a alguma espécie não humana, objetos, conceitos ou afins de forma que não presume causas ou outras características identitárias;
- Comunidades fetichistas também já possuem o próprio vocabulário para cobrir desejos relacionados com machucar, ser machucade, cometer ou sofrer abuso, querer atuar como alguém de corpo diferente ou afins de forma que não necessariamente é sexual e que facilita a comunicação com outres maiores de idade que tenham desejos compatíveis, visto que há comunidades maiores e com mais história;
- Cronosiane (alguém que tem a impressão de ter uma idade diferente da do corpo, geralmente por questões de pluralidade e/ou trauma) foi um termo cunhado para substituir transidade, termo que muitas pessoas associam com campanhas trolls como a de “clovergender”, termo cunhado dentro do 4chan para equiparar a identificação xenogênero com a identificação com uma idade diferente que supostamente abriria margem para pessoas adultas buscarem relacionamentos com menores de idade;
- Termos como questionando, reconectando, desmascarando e outros podem ser mais apropriados e/ou reconhecíveis para falar de identidades marginalizadas com as quais uma pessoa acha que se encaixa e está buscando saber se vai se encaixar, em comparação com transIDs e trisIDs (tris = trans + cis) que carregam a conotação de apropriação ou de noema não aplicáveis à experiência física da pessoa;
- Esta lista tenta reunir termos que podem ser usados no lugar de transIDs (incluindo os descritos acima), para pessoas que querem expressar sensações similares mas se afastar de tal estigma.
(Dito isso, considero “neoAGAB”/“SAGAB”/outras formas de “autodesignação do gênero imposto ao nascer” uma questão com basicamente as mesmas problemáticas de transIDs, onde pessoas estão usando um conceito feito para discutir um marcador em um documento não indicativo de qualquer outra questão como parte de uma identidade pessoal, e mesmo pessoas que possuem tal incongruência por conta de noemata/disforia/etc. poderiam buscar uma forma com menos conotações cissexistas de expressar tal questão.)
Radqueers defendem parafilias e transIDs? É só esse o motivo para pessoas quererem se afastar? Defender parafilias - geralmente atrações involuntárias por seres ou objetos “atípicos”, geralmente por serem incapazes de consentir, incluindo animais, menores de idade, pessoas inconscientes e corpos mortos - não necessariamente envolve ser procontato, isto é, acreditar que tais pessoas deveriam ter o direito de atuar em relação a tais atrações; há posições anticontato compostas por acreditar que essas pessoas podem expressar tais desejos sem agir em relação a eles, ou só agindo sob circunstâncias de roleplay. O problema que percebo em comunidades radqueer é que elas tentam passar a ideia de deixar cada pessoa se identificar como quiser e de ser positive acerca de qualquer identidade, o que muitas vezes infere em não haver muito esforço para afastar pessoas procontato desses espaços, ou para impedir adolescentes de “consentir” a relacionamentos com pessoas muito mais velhas.
Colocar transIDs e positividade com pedófiles procontato sob o mesmo guarda-chuva é, na minha perspectiva, um problema, por juntar uma identidade acessível a menores de idade muitas vezes não avaliada sob uma ótica séria por adultes com pessoas encorajando a normalização de relacionamentos entre adultes e menores de idade. Além disso, identidades como transidade encorajam pessoas a desconsiderar idades corporais, mesmo quando são fatores relevantes nas vidas das pessoas envolvidas.
Para quem tiver estômago, este vídeo (na língua inglesa) contém algumas entrevistas em comunidades radqueer que demonstram essa questão.
Dito isso, nem toda pessoa transID é radqueer e/ou procontato em relação a todas as parafilias. E acredito que faz mais sentido tratar tais questões de formas separadas do que mostrar para qualquer pessoa com “identidade fora do comum aceita por radqueers” que sua única opção é existir entre radqueers.
Pânico moral
TransIDs invalidam ou ridicularizam pessoas transgênero?
Por mais que eu não concorde com o uso do prefixo trans para descrever noemata, fetiches, pensamentos intrusivos ou identidades adotadas por parecerem legais, e por mais que o motivo de eu estar falando disso em primeiro lugar é a questão da presença cada vez maior de transIDs e de discussões sobre elas em espaços não-binários, não acho que qualquer identidade inerentemente invalida identidades vistas como parecidas. Assim como ume elfe transespécie não anula minha identidade transgênero ou como alguém que se considera não-binárie por conta de trauma não invalida a minha não-binaridade, uma pessoa com uma lista de dezenas de transIDs não é um motivo razoável para invalidar qualquer identidade queer, e qualquer pessoa que acha isso poderia estar inventando qualquer outra comparação como desculpa.
Pessoas com transIDs são, em geral, jovens neurodivergentes. Isso não significa que são pessoas que não causam mal a ninguém, que seus sentimentos são temporários ou que suas perspectivas são inválidas, mas sim que colocar todas as pessoas com tais identidades como gente que “quer fingir ser oprimida” ou participantes de um esquema de aliciamento de menores é um equívoco. Acho que o isolamento exagerado de pessoas com transIDs por meio de “DNIs” feitos para demonstrações superficiais de virtude (não que todos sejam, porque esses avisos começaram com pessoas só pedindo para não ser assediadas ou não entrar em contato com assuntos que engatilham trauma, mas hoje em dia muites usam essa desculpa para se livrar de qualquer responsabilidade de assediar pessoas com quaisquer opiniões diferentes) e comentários demonstrando falta de compaixão e/ou intolerância baseadas em entendimento superficial do assunto só deixam pessoas que se veem como transID mais suscetíveis a aceitar que suas únicas opções de socialização podem acabar sendo comunidades tóxicas ou abusivas que as acolhem.
Ataques com base em transgressões para além da modalidade de gênero
Mas em questão de impressões fora de comunidades cisdissidentes, acredito que transespécie acabe sendo um alvo mais significativo e/ou “escandaloso” em comparação com essas outras comunidades. É a mesma lógica de “se deixarmos homens se casarem com homens, o que vem depois? Homens se casando com animais?” Só que de forma mais ridícula, visto que pessoas transespécie só querem acesso a modificações corporais e, dependendo, mudanças na linguagem usada para tratá-las, e não relacionamentos com seres incapazes de consentir.
A comunidade Otherkin News acompanha ataques a alterumanes, como uma proposta de adição à constituição em um estado dos EUA que proibiria estudantes de demonstrarem “comportamentos não humanos” ou propostas de leis transmísicas em dois outros estados incluindo disforia/identidade de espécie dentro de definições de disforia/identidade de gênero em seus resumos. Esse tipo de lei muitas vezes só quer associar ações consideradas “grotescas” ou “sexuais” com pessoas inconformistas de gênero e/ou cisdissidentes, mas obviamente pode ter consequências legais que afetam alterumanes e furries independentemente de serem transgênero ou não.
Comparações hipotéticas e exageradas sobre que formas de “transidentidades” podem existir sem levar em consideração os contextos diferentes de cada tipo de construção social não são uma novidade: “se pessoas podem se identificar com um gênero diferente, ume pedófile pode dizer que se identifica como criança”; “ah, você diz que tem que respeitar seu gênero-estrela? Eu sou um unicórnio então, me respeite”; “validar mulheres trans não é diferente de validar a identidade racial de Rachel Dolezal” são argumentos comuns contra pessoas transgênero. A consequência é que não é surpreendente que várias pessoas transgênero fechem a cara para qualquer outra forma de identidade com o prefixo trans, ou presumam que todas sejam apenas campanhas feitas por trolls.
Porém, muitas pessoas marginalizadas por questões de modalidade de gênero e/ou neurodivergência também experienciam formas de disforia que não são justificáveis apenas levando em consideração características sexuais e/ou de expressão de gênero, ou sensos de identidade complexos que são reais mesmo não ocorrendo dentro do escopo de identidades de gênero. Eu não defendo a inclusão de todas essas experiências como trans, abreviação que já está estabelecida como questão de modalidade de gênero, e nem acho que faria sentido colocar tais questões como inerentemente LGBTQIAPN+. Mas isto - ou mesmo a questão de certa identidade ou experiência não constituir em opressão por si só - não deveria ser desculpa para ser intolerante e preconceituose com quem reinvindica identidades ou experiências diferentes.
Psicomisia e o ódio às diferenças
Vivemos em uma sociedade neuronormativa, com experiências de pluralidade sendo estigmatizadas e questionadas, com quaisquer métodos usados para lidar com trauma que sejam “esquisitos” sejam invalidados e ridicularizados (independentemente de terem sido aprovados por profissionais de psiquiatria/psicologia ou não) e com quaisquer pessoas se expressando de formas pouco comuns serem acusadas de “precisar ir para terapia/hospitais psiquiátricos”, como se esse fosse um processo tão rápido e fácil que faz sentido exigir que uma pessoa se retire completamente de qualquer contato com o resto da sociedade até que esteja “curada”.
Todes nós somos treinades para rejeitar formas diferentes de existir dentro de uma sociedade capitalista, onde só as pessoas no topo da hierarquia de classes podem ser admiradas por serem visionárias e inovadoras, enquanto o resto precisa só abaixar a cabeça e trabalhar, criando uma divisão falsa entre “questões da vida real” e “questões identitárias”. O que acontece é que, por certas comunidades terem mais pessoas, é possível o reconhecimento de uma certa forma de “normalidade” dentro daquele grupo: certos estilos de música foram inicialmente criticados antes de obterem popularidade em massa, certas formas de desafiar a heteronorma são aceitas em grupos heterodissidentes (enquanto pessoas dentro de tais comunidades ainda duvidam da existência de orientações fluidas e/ou de pessoas variorientadas por não haverem tantas pessoas reinvindicando isso).
Em questão de neurodivergência, apenas vejo comunidades autistas fortes, além de ver vários recursos publicados para pessoas com TDAH, ansiedade ou depressão. Mas há muitas questões sobre a mente humana que não são muito divulgadas ou mesmo estudadas, e mesmo questões que ainda são estigmatizadas mesmo dentro de comunidades neurodivergentes.
Acredito que estigma acerca de traumas e neurodivergências e falta de acesso a informações mais detalhadas sobre processos do cérebro acaba facilitando a adoção de transIDs, já que testes psiquiátricos nem sempre são acessíveis (especialmente para pessoas jovens cujas famílias podem não concordar em suas realizações pelo estigma) ou completos e comunidades para neurodivergências específicas tendem a não ser amigáveis a pessoas autodiagnosticadas ou que só preenchem alguns traços de tal neurodivergência, ainda que estejam buscando lidar com questões similares. Assim, fica fácil a alternativa de adotar a lógica já existente em comunidades não-binárias de cunhar o que quiser e incentivar outres a adotarem o termo para formar uma comunidade sem a necessidade de barreiras formais.
(Não sei qual é a solução ideal aqui, porque obviamente podem existir consequências negativas a deixar qualquer pessoa achando que demonstra algum sintoma de alguma coisa tomando espaço dentro de comunidades para alguma forma específica de neurodivergência, mas a exigência de um diagnóstico oficial e/ou acompanhamento profissional com certeza é uma barreira que prejudica pessoas em situações vulneráveis.)
Porém, espaços transID serem uma solução questionável à falta de acesso a comunidades e informações estabelecidas não significa que tais pessoas mereçam ser assediadas e ter seus pensamentos e sentimentos ridicularizados. Lógicas como “isso é ruim porque é esquisito” ou “isso merece chacota porque não entendi” são usadas contra grupos marginalizados, por mais que em certas circunstâncias possa estar vindo de respostas defensivas por conta do histórico já mencionado de extrapolar identidades e opressões hipotéticas para invalidar certas identidades marginalizadas.
Para formar uma comunidade forte e inclusiva, é importante avaliar opressões sistêmicas para além de preconceito contra grupos específicos, além de não responder de forma imediata e violenta a comportamentos ou identidades “esquisites”. É possível discordar ou discutir com base nas intenções reais de uma identidade ou comunidade, sem dar risadinhas, presumir má fé ou julgar um termo pelo seu nome.
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