O texto abaixo foi originalmente publicado sob esta postagem no Reddit. Acho que tem algumas coisas que não são de conhecimento geral, então decidi republicar aqui também.
Como ume usuárie de neolinguagem na vida diária, vou contar a história toda:
A primeira onda contra a neolinguagem - a que ocorreu no início da década passada, quando o que era espalhado eram somente os conjuntos @/el@/@ e x/elx/x, majoritariamente para substituir o/ele/o como conjunto de linguagem genérico - era principalmente antifeminista. A maioria das pessoas não ligava, com es pouques que se importavam em criticar fazendo isso principalmente sob o ponto de vista de que era uma problematização excessiva usada para desmerecer não só esta mas outras pautas feministas.
Depois disso, veio o texto Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero, de 2013. Este texto foi marcante para a história da neolinguagem, porque não só deu uma desculpa mais séria para pessoas abandonarem esta pauta (a do empecilho de programas leitores de tela em ler consoantes ou caracteres que não são letras no meio ou final de palavras) como também facilitou o apagamento não-binário dentro da pauta de criação de gêneros gramaticais alternativos: afinal, é uma pessoa não-binária apontando que não só não se identifica com as palavras com X como também que palavras usando tal letra no lugar de vogal não é pronunciável em fala oral.
Foi só depois deste texto que vários “manuais para linguagem inclusiva” surgiram, ignorando ou criticando as formas de neolinguagem existentes na época, geralmente optando por -/-/- (isto é, por evitar artigos, pronomes e terminações marcades) como linguagem genérica. Esta é uma opção válida? É sim, tanto como linguagem genérica quanto para linguagem pessoal. Porém, é insuficiente. Mesmo dentro de contextos de linguagem genérica, a maioria das pessoas entende “não ter que mudar a língua portuguesa para incluir todo mundo” como “não preciso reavaliar minha comunicação”, então “não precisamos de neolinguagem porque é só contornar” vira um argumento antineolinguagem usado por pessoas que continuam usando o/ele/o e/ou a/ela/a em contextos onde linguagem genérica deve ser aplicada.
Alguns exemplos desse tipo de manual de “comunicação inclusiva”: Governo do RS (2014) / IFAL (2017) / Conselho da UE (2018)
Porém, em 2014, começou a surgir a pauta de “linguagem neutra oral” (o termo neolinguagem só foi cunhado em 2016). Não por feministas, já que estas muitas vezes passaram a se contatar com o uso de -/-/- ou a/ela/a como linguagem genérica, mas por pessoas não-binárias ou pessoas heterodissidentes buscando a inclusão de pessoas não-binárias. Esta é uma proposta tentativa de ê/éle/e como “linguagem neutra”. O Manifesto Ile também é de 2014 não fala de artigos, mas defende o pronome ile e a letra E como terminação. A Espectrometria Não-Binária lançou seu guia de “linguagem oral não-binária ou neutra” lá por novembro de 2014, e neste é citado um documento anterior que defende i/ili/i como linguagem genérica.
A partir disso, a neolinguagem ficou associada principalmente à pauta não-binária, e não à pauta feminista. Não que não hajam pessoas que sejam contra ambas as pautas e que consideram tudo a mesma coisa (o livro As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil traz um panorama bem investigado sobre isso), mas isso significa que o grupo que seria beneficiado passou de ‘todas as pessoas que não reivindicam o conjunto o/ele/o’ para ‘todas as pessoas que não se sentem confortáveis com as opções de linguagem já disponíveis na língua portuguesa’, uma população muito menor e com menos força de mobilização.
A não-binaridade incomoda porque ela rompe com uma série de presunções, muitas das quais são usadas por pessoas binárias para validarem suas próprias identidades: aparência não dita gênero, corpo não dita gênero, presumir gênero é preconceito, espaços precisam se preparar para pessoas que não podem ser colocadas entre um grupo/uma sala para homens e outre para mulheres. Também é possível ser quase/um pouco homem ou mulher mas não totalmente, ou ser homem e mulher ao mesmo tempo, ou ter várias experiências fora do binário homem/mulher que são diferenciáveis entre si mesmo sem terem referências tão fortes como as dos gêneros mulher e homem: pessoas não-binárias não podem ser jogadas em um terceiro grupo e era isso, respeito a identidades não-binárias requer um entendimento mais profundo sobre as necessidades de cada ume.
Nota adicional: o que quero dizer aqui com próprias identidades tem a ver com pessoas que sentem atração apenas por homens/mulheres querendo reforçar isso se utilizando de critérios pessoais para dividir pessoas entre homens e mulheres; com pessoas cis e hétero querendo se afastar do estigma de serem queers por meio de expressões de gênero e ênfase em características corporais supostamente exclusivas a ser cis e hétero; com mulheres e homens trans impondo critérios visuais de quem deve ser viste como mulher ou como homem para justificarem suas aparências como sempre pertencentes aos seus gêneros; com pessoas cis inconformistas de gênero querendo usar certas características sexuais para afirmarem inconformidade de gênero cis ao invés de conformidade de gênero trans; entre outras razões pessoais para a defesa de estereótipos de gênero que fundamentalmente partem de critérios cissexistas e/ou conformistas de gênero.
A neolinguagem problematiza o uso de o/ele/o como linguagem genérica, algo que muita gente teria que se reacostumar para mudar, mas também introduz variações gramaticais que requerem readaptação do que é uma linguagem correta/adequada. Uma pessoa vê “ume amigue minhe” pela primeira vez e vai estranhar, por ser uma construção nova para o contexto social dela. Mas o processo de readaptação, ao contrário de neologismos como “tuitar” ou “photoshopar”, agora está associado à aceitação da existência de pessoas não-binárias, o que é outra coisa que pessoas preferem ignorar.
Tem gente que se apavora ainda mais quando percebe que a neolinguagem não se trata apenas de ter um gênero gramatical neutro para usar de forma genérica, e sim da abertura para que pessoas possam adaptar tratamentos gramaticais às suas necessidades de expressão pessoal. Isso causa anseios em várias pessoas porque já se sabe que pessoas cisdissidentes devem ter suas linguagens pessoais respeitadas, e assim não adianta nem elas se acostumarem com um “gênero neutro pronto”, porque vão ter pessoas reivindicando artigos diferentes (ê, i, le, etc.), pronomes diferentes (ael, élu, ily, etc.), flexões diferentes (e, i, y, etc.) e assim por diante. Então bate aquela insegurança de “ter que aprender algo novo” (como aplicar quaisquer conjuntos de linguagem) e não só decorar também, além dos fatores já mencionados.
Comments
No comments yet. Be the first to react!