Tem alguém não-binárie defendendo pautas não-binárias???

Artigo sobre candidates não-bináries e suas pautas no ano de 2026. Menciona cissexismo, capacitismo, exilinguismo, racismo, mascunormatividade linguística e uso de LLMs

A análise e seu motivo

A plataforma VoteLGBT permite que candidates registrem suas identidades e um perfil resumido para facilitar que pessoas LGBTQIAPN+ que buscam ser representadas na política achem candidates que gostam.

Obviamente, representação política não é tão fácil: candidates precisam apelar para uma maioria perissexo, cis e hétero para serem eleites, além de precisarem lidar com uma maioria perissexo, cis e hétero não encontrando vantagem em tornar o território menos hostil a pessoas LGBTQIAPN+.

Dito isso, le @Aliel@colorid.es me fez uma pergunta quando veio aqui em casa. Algo do tipo, existe candidate não-binárie que defende a neolinguagem? E, não, eu nunca vi alguém com este comprometimento. Infelizmente, ainda é um assunto ao qual a maioria está indiferente ou é contra. Mesmo o uso de neolinguagem em materiais de campanha ou na abordagem de pessoas para dar panfletos é tabu. O livro de Urse já mostra que, enquanto a direita se preocupa em combater a neolinguagem, a esquerda não se preocupa em defendê-la.

Mas aí pensei: se existem candidates não-bináries e pautas não-binárias, será que há algume candidate que as defende explicitamente?

Os partidos analisados para achar candidaturas não-binárias no site VoteLGBT em 2026 são: UP, PSTU, PSOL, PCdoB, PT, PV, PDT, PSB, MDB e PSDB. Não só partidos de direita (especialmente menores) têm menos chances de acolherem pessoas não-binárias como eu teria que verificar cada página de candidatura do AVANTE ou seja lá o que for o que for para saber se cada pessoa ali é não-binária. O PCB seria incluso se algume candidate LGBTQIAPN+ tivesse se registrado na plataforma.

Lembro vagamente de já poder ter filtrado por pessoas autoidentificadas como não-binárias em eleições passadas, então só poder usar os filtros “trans” e “mulher”, ambos os quais aparentam excluir pessoas que se disseram não-binárias desses filtros nas pesquisas, foi um empecilho a mais em coletar esta lista.

Além disso, só incluí pessoas autoidentificadas como não-binárias. Não sei quantes des candidates que escolheram “outro” o fizeram por estarem questionando suas identidades de gênero (um processo que não necessariamente inclui a não-binaridade) ou mesmo por não saberem o que significa o termo cis. Também existem travestis que não se colocam dentro da não-binaridade, então decidi não incluir a categoria travesti por si só.

Tentei dar uma lida nessas marcações diferentes de homem/mulher para ver se alguma descrição explicava melhor a situação de gênero da pessoa, mas, quase sempre, todas as informações extras que poderiam ser relevantes eram que colocaram ou só ela ou só ele como tratamento e que quase todes tinham gay, lésbica ou heterossexual como orientação. Menções honrosas vão para a Senhora Mar, que é travesti pansexual concorrendo como deputada federal pelo PSOL na Bahia e citou infância sem gênero como uma de suas pautas, e para a Bancada Transformar do PSOL no Pará, que defende a pauta de acesso de “travestis, transsexuais (sic), transmasculinos e não-binarios (sic)” ao ensino superior; o líder da chapa se coloca como transmasculino ou homem trans, dependendo da divulgação, mas não achei algum local com qualquer ume des participantes sendo descrite como não-binárie de forma explícita, então também estou excluindo tal candidatura da análise.

Análise inicial

  • 7 candidaturas foram encontradas: 3 do PSOL, 2 do PT, 1 da UP e 1 do PSB;
  • 4 candidaturas são da região Sudeste (3 SP e 1 RJ), 2 são da região Sul (RS e SC) e 1 é da região Norte (AM);
  • 4 concorrem para deputades federais e 3 para deputades estaduais;
  • Nenhuma das pessoas declarou de uma orientação específica a pessoas não-binárias (embora exista a possibilidade do cadastro não ter sido 100% livre): 3 pessoas se declararam gays, 2 pessoas se declararam pansexuais, 1 pessoa se declarou bissexual e 1 pessoa se declarou heterossexual;
  • Apenas Indianarae Siqueira exige tratamento não normativo, ainda que de forma vaga (“neutro”; parte de seu material indica a flexão e). 4 pessoas marcaram “tanto faz” no campo de “pronomes” (porque aparentemente exigir marcações para além de pronomes seria exigência demais de quem quer ter cargo na política), 1 marcou “ele/dele” e 1 marcou “ela/dela”;
  • 4 das pessoas marcaram ser brancas, 2 marcaram ser pretas, 1 marcou ser indígena;
  • Ninguém marcou ser intersexo;
  • 1 pessoa marcou que possui deficiência (“TEA”, sigla para Transtorno do Espectro Autista);
  • Todes possuem Instagram, 3 possuem Facebook, 2 possuem sites próprios e canais de WhatsApp próprios.

Agora eu vou entrar nos links de cada candidate e ver 1) quais são suas pautas e 2) se há pautas específicas para a população não-binária. Pessoas não-binárias acabam precisando de mais auxílios quando a saúde, educação e emprego (como pessoas de quaisquer outros grupos marginalizados) em comparação com seus pares cis, e minha intenção aqui não é tratar a população não-binária como alienígenas que só precisam de quem defenda nossa hormonização, retificação e linguagem (ou outras pautas do tipo), mas o ponto desta postagem é especificamente ver se esta representatividade não-binária está só nas fichas ou se há uma perspectiva não-binária dentro das propostas também.

As candidaturas

Lucas Penteado (Federal por SP, 1303)

Lucas Penteado só tem um Instagram como referência (o qual não tem link para mais nada), o que dificulta achar qualquer projeto ou proposta. O perfil em si não tem nenhuma menção à não-binaridade, e a maioria das postagens parece se tratar de falar a favor do Lula e contra o Flávio Bolsonaro. Também tem algumas postagens junto com pessoas que estão concorrendo para serem deputadas estaduais.

Este vídeo com Jaque Medeiros fala sobre a importância de representatividade de mulheres e menciona a falta de representatividade “do nosso povo”, sem explicitar qual o povo em questão (se é uma referência genérica a viver fora da classe política ou se é sobre fazer parte de algum grupo marginalizado). Outras publicações só fazem referências genéricas a já conhecer o candidato (sendo que eu não acompanho BBB e vou pouquíssimas vezes ao teatro ou ao cinema, então não tenho contato com os valores desta pessoa).

Filipe Menino (Federal por SP, 4054)

O “link para Instagram” do Felipe Menino na verdade vai para o Threads. Dito isso, já há algumas informações sobre ele na própria página do VoteLGBT:

Sou advogado há 13 anos do Conselho Regional de Óptica e Optometria do Estado de São Paulo (associação civil), lutando pelo acesso à saúde visual na atenção primária e no combate à cegueira evitável; pesquisador e mestrando em história e crítica de arte pela UFRJ; budista e casado.

Ok, quanto a pautas, temos aí acesso à saúde visual.

No Threads, ele compartilhou sua propaganda eleitoral, onde ele defende:

  • Regulação da optometria para acesso mais fácil a exames de vista;

  • Políticas públicas de acolhimento digno na velhice para pessoas LGBTQIAPN+.

Ele também publicou outro vídeo com basicamente as mesmas propostas.

No Instagram, tem vídeos que ainda falam destes mesmos assuntos, como este que promove Talita Cadeirante, e mais uma coisa ou outra, como este vídeo visibilizando um caso de queermisia (aviso de conteúdo para violência verbal).

Dito isso, não encontrei nenhuma menção específica da não-binaridade dele nos perfis, ou mesmo menções específicas a pessoas trans ou não-binárias fora da sigla LGBTQIAPN+ em si.

Santo Legaliza (Federal por SP, 5042)

Como já deve ser óbvio para muitas pessoas, a pauta principal que Santo traz é a legalização da maconha. Seu site também menciona que o candidato também quer o fim da violência policial contra o povo periférico.

Eu não conheço o histórico dos candidatos anteriores desta lista, mas pelo menos eu sei que esta não é a primeira eleição onde Santo se declara uma pessoa não-binária. Dito isso, não há nenhuma menção à sua não-binaridade em seus perfis, e seus materiais contém o uso constante do artigo e da flexão o.

O Filipe Menino já publicou pelo menos um cartaz onde o uso de LLMs foi óbvio, mas o Santo faz uso desta tecnologia de forma mais descarada ainda: várias de suas publicações no Instagram e no YouTube possuem aquele visual genérico associado com LLMs, assim como a própria moldura para ícone que oferece em seu site para sues apoiadóries.

Álex Souza (Federal pelo AM, 5050)

A última candidata da lista de concorrentes a deputade federal é a única que não está concorrendo em São Paulo. Ela também é a única até agora com um documento inteiro onde apresenta suas propostas e que diz ser não-binária em seu perfil no Instagram. O programa tem 34 páginas, design simples mas relativamente bem feito e é para uma candidata com número fácil (5050), então imagino que haja bastante foco nesta candidatura. (É apenas minha impressão, mas não sou do Amazonas.)

O programa tem 8 eixos:

  1. População LGBTQIAPN+;
  2. Povos originários;
  3. Juventude;
  4. Para o povo;
  5. Saúde e inclusão;
  6. Meio ambiente;
  7. Direitos humanos;
  8. Cuidados essenciais.

Eu dei uma lida e, além da linguagem mascunormativa, o que me deu um gosto ruim da boca foi o uso dos termos “mãe atípica” e “pai atípico”: que (em geral) não é sobre nans neurodivergentes, e sim sobre responsáveis de crianças neurodivergentes que buscam se centralizar em discussões sobre neurodivergência por conta disso, assim apagando a existência de pessoas adultas neurodivergentes (e perpetuando mais um eufemismo, “atípique”, ao invés de usar termos mais diretos, assim como “especial”). O termo neurodivergente (ou mesmo neuroatípique ou neurodiversidade) não aparece em nenhum do programa em si, apenas autismo (em um contexto que dá a entender “pessoa com autismo” ao invés de pessoa autista, que é o termo que grande parte das comunidades autistas organizadas tende a preferir). Quero ressaltar que estes problemas não são exclusivos de qualquer candidate ou partido, e sim daquele “senso comum” que joga grupos marginalizados para baixo do ônibus caso certas pautas ou problematizações não sejam suficientemente populares, mas é algo que eu gostaria de pontuar como um ponto negativo em um programa que, em geral, é excelente.

(Em seu perfil do Instagram, há esta publicação que usa o termo “centros de neurodiversidade”, acompanhado do quebra-cabeça, símbolo perpetuado por grupos antiautistas, especialmente Autism Speaks, que quer “exterminar o autismo”. É o tipo de capacitismo que ocorre quando famílias alistas que precisam lidar com crianças autistas são centralizadas, ao invés de adultes autistas ou de organizações formadas por pessoas autistas.)

Algumas das pautas que posso citar de forma positiva são: criar um incentivo para cidades manterem transporte público à noite, criar pensão para pessoas que não podem trabalhar por ficarem o dia inteiro cuidando de outres, criar programas de ensino superior em estabelecimentos penitenciários e defender a proteção a terras indígenas demarcadas além da demarcação de terras indígenas ainda não reconhecidas. Em relação à população LGBTQIAPN+, Álex propõe a criação de uma rede de casas de acolhimento para pessoas LGBTQIAPN+ em situação de violência, abandono ou falta de moradia, preparo maior para o recebimento de pessoas LGBTQIAPN+ no SUS e criação de banheiros sem gênero em espaços públicos, como alguns destaques.

Pessoas não-binárias são mencionadas múltiplas vezes (no caso, Álex não usa o hífen), especialmente quanto à inclusão de pessoas não-binárias dentro do atendimento do SUS (inclusive nos documentos e no respeito a tratamento, embora aqui esta questão esteja sendo referida como “pronomes”) e uma vez na questão de banheiros neutros. Há algumas menções a “pessoas trans e travestis” e outras menções a “pessoas trans”, enquanto outras vezes a menção é aos três grupos (pessoas trans, travestis e não-binárias). Eu vou presumir que tais incoerências sejam por falta de vontade de repetir tudo, e não exclusões propositais de travestis ou de pessoas não-binárias de determinadas propostas ou da modalidade trans (não há motivo para reservar vagas de trabalho para pessoas trans sem incluir travestis, por exemplo).

Indianarae Siqueira (Estadual pelo RJ, 13169)

Indianarae Siqueira tem um parágrafo que lhe descreve no VoteLGBT, e ali também tem um link para seu Instagram, o qual contém links para financiamento coletivo e uma conta no Threads. O local com mais informações é a descrição do financiamento coletivo, mas, antes disso, quero chamar atenção para as biografias nos outros sites:

Indianarae Alves Siqueira é uma das principais lideranças do movimento de pessoas trans, travestis e não binárias no Brasil. Nascida em 18 de maio de 1971, em Paranaguá (PR), é ativista de direitos humanos, fundadora da CasaNem, do PreparaNem e presidente do grupo TransRevolução. Sua trajetória é marcada pela luta por cidadania, saúde, educação e moradia para pessoas LGBTQIAPN+ em situação de vulnerabilidade.

🏳️‍⚧️ Candidata a Deputada Estadual PT/RJ - 13169 💄 Vegana🐛 🌈 Idealizadore @casanem_ & Grupo TransRevolução ✊🏽Luta Nome Social BR com @jovannacardoso

🔥Pute 🌱🐶Vegane

🏳️‍⚧️ LGBTQIAPNB+

🏳️‍🌈Idealizadore da @casanem_

do Grupo TransRevolução

Não há em nenhum momento uma indicação de pronome ou artigo, mas há indicações das flexões a e e. Também não há indicação explícita acerca de identidade de gênero e o perfil no Threads (que requer mais cliques no VoteLGBT) é o único que usa somente a flexão e.

O financiamento coletivo aponta a história de Indianarae Siqueira, a qual sem dúvida traz um currículo impressionante:

Fundou em 1995 o Grupo Filadélfia De Travestis e Liberados em Santos (SP) pra atuar na luta por prevenção e tratamento pras pessoas vivendo com HIV/Aids. A organização foi pioneira no Brasil ao conquistar a obrigatoriedade do nome social nos prontuários médicos para travestis e transexuais, internação em ala separada ou feminina de hospitais e também o reconhecimento de casais lgbtqiapn+ como cônjuges, na conferência de saúde de Santos em 1996 . O que foi um escândalo sem precedentes pra época.

A sua ação performatica dos seios de fora pelo Rio de Janeiro e em alguns lugares do Brasil através da Marcha Das Vadias, fez que o nome social chegasse aos tribunais superiores, já que sua documentação de identidade não continha o gênero com o qual se identificava o que a liberava em andar sem camiseta na rua.

Em 2015 fundou o pré-vestibular PreparaNem, focado na inserção de transvestigeneres nas universidades através do ENEM. O projeto colocou mais de 5 alunas em universidades já no seu primeiro ano, o que colaborou com a criação da CasaNem (Primeira casa de acolhimento para pessoas LGBTQIAPN+, no Brasil).

Em relação a pautas e propostas para o futuro, porém, só há isto:

Sua vida é o alicerce da Transrevolução, um movimento que não pede permissão para existir, mas exige o direito ao afeto, à educação e à vida plena para todas as identidades trans, travestis e dissidentes de sexo/gênero.

Suas propostas parecem estar concentradas em suas publicações de Instagram. Esta “cola” contém o seguinte parágrafo dentro de sua descrição:

Para avançar nas pautas de trabalho digno nas ruas; acolhimento e direitos para a população LGBT; valorização dos feirantes, produtores e da economia popular; enfrentamento às violações de direitos humanos e animais e direito à cidade para todas as pessoas…

esta publicação contém uma série de propostas para auxiliar pessoas que protegem animais, oferecer saúde pública a animais e combater violências contra animais. Esta aqui traz 20 propostas para a cultura, entre elas piso salarial maior para artistas e técniques de arte contratades pelo Estado e agenda 50% gratuita para coletivos independentes em teatros e centros culturais. Há também esta postagem onde as seguintes propostas são citadas:

1️⃣ Cenário político 2026: PL da Dosimetria, escala 6x1 e retrocessos

2️⃣ Cota Trans Já: a urgência de ação afirmativa em editais de cultura e trabalho

3️⃣ Piso salarial de R$ 2.000 para toda a população renda mínima e dignidade para todos os trabalhadores e trabalhadoras

4️⃣ Transporte gratuito para toda a população de baixa renda passe livre como direito de ir e vir para trabalho, saúde, educação e cultura

5️⃣ 4 refeições diárias já política de segurança alimentar, acesso à alimentação digna como direito básico

6️⃣ Organização do território: segurança, renda e direitos da população trans/travesti negra e favelada

Não acho que Indianarae Siqueira seja o tipo de pessoa não-binária apática à causa não-binária, levando em consideração seu histórico de vida. Mas acho relevante para o propósito deste texto apontar que pessoas não-binárias não são mencionadas de forma específica em nenhum lugar, embora suas propostas sejam tão espalhadas que podem existir propostas mais específicas a este grupo que simplesmente não encontrei.

Douglas Meriz (Estadual por SC, 50505)

A publicação de apresentação de Douglas Meriz contém o seguinte como pontos principais:

Sou o Douglas Meriz, e a minha história não foi escrita em gabinetes ou na política tradicional.

Ela começou desde o início nas ruas, no trabalho diário e nas lutas de quem vive com o peso da desigualdade e do preconceito.

A força pra encarar essas batalhas vem da minha identidade e da fé que eu encontrei nas religiões de matriz africana.

(Qual identidade? Qual ou quais religiões de matriz africana? Existe um peso racial quando uma pessoa generaliza um aspecto de um continente inteiro, como em “culinária asiática”, “tradições ameríndias” ou “religiões de matrizes africanas”, o que inclusive faz parte das discussões sobre orientalismo. Por isso, é importante saber especificar para além disso, como em culinária coreana ou vodu haitiano. Faz sentido usar um termo mais amplo quando se trata de uma questão mais ampla, mas o contexto é de uma pessoa autodeclarada branca falando sobre a própria fé “nas religiões de matriz africana”, dando a entender a ideia de totalidade, quando seria possível falar sobre ter encontrado fé em algumas ou múltiplas religiões de matriz africana, ou ter nomeado caso se tratem de apenas algumas.)

Eu defendo com orgulho os direitos da comunidade LGBTQIA+, a liberdade religiosa, o combate ao racismo e à corrupção.

Como parte da população LGBTQIA+, defendo que ninguém deveria ser obrigado a esconder quem é pra existir.

Eu também acredito na urgência de cuidar da saúde mental dos trabalhadores.

Enfrentar jornadas exaustivas e ter uma vida digna parece quase impossível, e eu sei disso porque essa também é a minha realidade.

Também há outra postagem onde elu lista uma série de “propostas” (que estão mais para pautas em muitos casos, por não serem concretas), separadas em temas:

  • Trabalhador não é máquina (como fim da escala 6x1 e defesa de salários dignos);
  • Protetor independente não pode carregar o Estado nas costas (como hospitais públicos veterinários e combate firme aos maus-tratos e ao abandono);
  • Direitos LGBTQIA+ são direitos humanos (como casas de acolhimento para pessoas em situação de violência e vulnerabilidade e programas de empregabilidade e inclusão para pessoas LGBTQIA+);
  • Respeito à fé. Combate ao racismo religioso (como preservação da memória e do patrimônio cultural dos terreiros e educação para combater o preconceito religioso);
  • Saúde mental é direito (como políticas de prevenção ao suicídio e ampliação do acesso ao atendimento psicológico).

Como em tantos outros casos da lista, não há nenhuma menção à não-binaridade ou ao fato de Douglas Meriz aparentemente não se importar com tratamento gramatical. Todos os materiais utilizam artigo e flexão o tanto para sua linguagem pessoal quanto para linguagem genérica, mesmo em casos onde seria fácil evitar marcações (seria fácil substituir dos trabalhadores por do povo trabalhador no espaço disponível na imagem, por exemplo).

Depois de ver que uma das imagens de fundo tinha um símbolo de estrela de 4 pontas mostrando que era uma imagem feita usando LLMs, não pude deixar de perceber que vários dos textos contém listas de 3 itens que são relativamente arbitrários (como nas frases de efeito “quero construir um mandato que tenha lado: o lado de quem trabalha, de quem luta e de quem muitas vezes é obrigado a resistir para ter seus direitos respeitados” e “existir com liberdade, segurança e dignidade é um direito”). Eu não acho que todo o texto das imagens linkadas foi escrito por um gerador de lero-lero, ou que todos os designs das imagens (os quais são em sua maioria bastante simples e consistentes) foram feitos com LLMs, mas acho provável que os textos tenham passado por um ChatGPT da vida em algum momento do processo de escrita.

Pessoas trans são mencionadas em especial uma vez (na suposta proposta “políticas de inclusão e proteção para pessoas trans”). Pessoas não-binárias não foram mencionadas de forma específica nenhuma vez, nem na sigla utilizada (já que não há N em LGBTQIA+).

Everaldo Oliveira (Estadual pelo RS, 80000)

Apesar de “ter um website” listado, na verdade o link no VoteLGBT aponta para a página inicial do site da UP. Para seu crédito, é possivel achar informações específicas sobre uma candidatura no site.

No VoteLGBT, a não-binaridade de Everaldo é mencionada, ainda que de forma resumida (“NB”) que usa a sigla como substantivo ao invés de adjetivo:

Iniciou sua militância no movimento estudantil onde foi o primeiro NB Coordenador-Geral do DCE da UFRGS, e foi diretor da UNE.

Porém, esta questão é completamente omitida no perfil da página da UP:

Foi coordenador-geral do DCE da UFRGS, diretor da UNE e integrante da Coordenação Nacional do Movimento Correnteza.

Em seu Instagram, elu também tem “NB” ao lado de uma bandeira arco-íris.

Quanto a questões defendidas, elas são bem resumidas nas duas descrições mencionadas:

Organizou a luta da juventude contra as opressões na Universidade e lutou em defesa da educação , pelo fim da escala 6X1 e pela prisão de Bolsonaro e os golpistas.Defende uma sociedade livre da exploração, o socialismo!

Atualmente segue mobilizado na defesa da educação pública, contra as privatizações e pela organização da juventude e da classe trabalhadora.

Porém, uma publicação de Instagram dá mais detalhes: são 25 pautas, algumas das quais são propostas relativamente diretas (“passe livre nos ônibus e na Trensurb”, “Delegacias da Mulher 24 horas em todo o RS”, “prioridade de investimento para prevenção de desastres ambientais”) enquanto outras estão mais para ideais abstratos (“combate ao racismo e à violência de Estado”, “combate ao feminicídio e aos estupros”, “valorização dos aposentados”). Um dos itens é “anulação da Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência”, sendo que estas são questões federais.

É até possível que Everaldo Oliveira tenha planos concretos para todos os seus pontos, mas, infelizmente, o documento mais completo oferecido sobre o que ile faria na Assembleia Legislativa foi um carrossel de Instagram. Tentei procurar no site da UP, presumindo a possibilidade de que o programa fosse igual a todes do partido, mas não achei menções a vários dos itens citados no carrossel.

Nenhum dos itens, porém, menciona ou teria como público-alvo principal pessoas não-binárias, ou mesmo pessoas cisdissidentes ou heterodissidentes num geral. Novamente, não acho que isso por si só é necessariamente um problema, especialmente pelo quanto há de pautas relacionadas com combate à violência, acesso à moradia e valorização de estruturas públicas (SUS, escolas públicas, fim de terceirizações, etc.), mas é uma questão perceptível quando outros grupos específicos e outras opressões específicas foram mencionades.

O veredito

Há mais pessoas não-binárias que não se declaram não-binárias fora da plataforma VoteLGBT (4) do que indicam não-binaridade em seus perfis fora da plataforma (3), sendo que, no caso de Indianarae Siqueira (contade como alguém que explicita sua não-binaridade), a não-binaridade apenas pode ser inferida a partir do uso da flexão e em combinação com a ausência de especificações acerca de gênero ou expressão de gênero.

A representação não-binária também não aparece de forma centralizada ou positiva em nenhuma campanha. Váries candidates se orgulham em, por exemplo, representar uma determinada região, profissão ou pauta, e parte des candidates listades se incluem nisso (como Filipe Menino e seu foco em saúde visual); mas, se a não-binaridade aparece, é como uma linha no perfil ou uma menção em “ser LGBTQIAPN+” no material de campanha. A não-binaridade é, aparentemente, algo a ser escondido do eleitorado geral: algo que não só não ajuda na campanha, como também poderia prejudicar o quanto cada candidate é aceite.

Em relação às pautas, 4 das candidaturas mencionam questões LGBTQIAPN+, com 3 destas oferecendo pelo menos uma menção específica a pessoas trans e apenas Álex Souza mencionando pessoas não-binárias como uma categoria específica. Sem perfis mais completos, porém, é difícil saber quantas das outras 6 pessoas votariam contra a implementação obrigatória de banheiros neutros ou da reformulação da “política de linguagem simples” de forma que a abra para reconhecer a diversidade de gêneros gramaticais para tratar pessoas específicas, ou a favor da inclusão explícita de pessoas não-binárias não trans (como isogênero ou absgênero) dentro de políticas voltadas para a população trans, por exemplo.

Eu consideraria votar em Álex Souza, Indianarae Siqueira ou Everaldo Oliveira, mas não voto em tais estados. Enquanto isso, prefiro candidates com propostas concretas e que não aparentam estar usando LLMs constantemente, algo que pra mim é um sinal de que parte da reflexão da pessoa está sendo terceirizada para uma máquina treinada para gerar textos que a média da internet faria. Já temos problemas suficientes com a classe política ignorando (ou mesmo suprimindo) pautas consideradas “nichadas demais” em busca de ter um eleitorado amplo para também termos que lidar com a eleição de mensageires de carne.

E de resto, temos aliades?

O VoteLGBT não tem filtros para questões mais específicas, apenas para “principais pautas”. Porém, mesmo filtrando para quem tem como prioridade “Cidadania LGBT+” (a categoria mais próxima de “contra o avanço das pautas antitrans” ou “a favor de avanços para o respeito à não-binaridade”), há muites candidates que não facilitam para que suas opiniões ou pautas sejam encontradas. Inclusive há candidates na lista que mal citam questões “LGBT+” mesmo listando tal prioridade.

O Instagram limita bastante acesso sem login, por exemplo, e a maioria des candidates usa somente o Instagram para comunicarem suas ideias. Mesmo que eu não seja contra candidates manterem contas em redes sociais onde há mais gente, não acho que o formato de rede social seja ideal para acompanhar as posições de ume candidate. Outres candidates querem inscrições em suas listas de e-mail ou canais de WhatsApp, ao invés de explicarem suas propostas publicamente, e eu não acho que este deveria ser um requerimento para entender que tipo de propostas alguém tem.

Mesmo quem tem site próprio muitas vezes não elabora muito nele. Por exemplo, Prof. Marcelo Yoshida (PT-SP) tem vários depoimentos e várias fotos, mas apenas 4 caixas pequenas para dizer “o que defendemos” que estão mais para ideais do que para propostas. Enquanto isso, Ruth Venceremos (PT-DF) oferece propostas mais concretas e Fe Miranda (PSOL-RS) tem tanto parágrafos explicando sua posição quanto propostas derivadas de cada eixo.

Aliás, não é necessário um site próprio para disponibilizar um local apropriado para propostas. Por exemplo, este material da Vilma Reis (PT-BA) é um PDF no Google Drive, ao menos não exige login e tem a capacidade de disponibilizar bastante texto. Lorran Neves (PSTU-RJ) decidiu colocar um resumo de suas propostas na descrição de sua campanha de financiamento coletivo.

Mesmo assim, é muito difícil saber o que boa parte das pessoas listadas no VoteLGBT fariam ou não fariam pela população não-binária, especialmente em pontos que podem não ser necessariamente benéficos a pessoas trans binárias ou binarizadas (por exemplo, já vi pessoas defendendo a não criação de banheiros neutros porque o que deveria ser feito é deixar pessoas trans entrarem nos banheiros que correspondem com seus gêneros, sendo que apenas duas identidades de gênero são representadas nesses banheiros, e a questão da neolinguagem mal é defendida pelas próprias comunidades não-binárias mesmo sendo necessidade para um grupo cada vez maior de pessoas). Quando o assunto é a inclusão de pessoas trans por estarem em situação de vulnerabilidade, esta é outra questão que deixa pessoas binárias defensivas, dando a entender que somos pessoas cis que decidimos ser irritantes em relação a como somos tratades e podemos parar a qualquer momento, quando muites de nós sofrem com as mesmas questões de exclusão social, vontades de transição física, violências com base em nossas aparências e disforia de gênero não aceita pela família do que mulheres e homens trans. As novas casas de acolhimento vão incluir pessoas não-binárias? E vão ter um espaço que não seja designado para homens ou para mulheres? E as cotas trans para empregos e universidades? O pessoal que defende inclusão LGBTQIAPN+ em empregos sequer parou para pensar que a maioria das vagas repassadas por aí são para “estagiários(as)”/“engenheiros(as)”/etc.?

Com as informações que consegui ver, admito que não encontrei outras menções a pessoas não-binárias. Raramente vi menções a pessoas trans, embora tenha visto uma ou outra menção a questões trans, como defesa do uso do nome social.

No final, mesmo depois de toda esta pesquisa, ainda acho que (aqui em São Paulo) vou votar na Neon Cunha, como fiz em outras eleições (desta vez ela está com o número 13913), e no Guilherme Cortez (5005), de quem recebi santinho perto de onde moro e gostei do que vi no site. De qualquer forma, peço para que todes que estejam lendo procurem ir atrás dos programas completos de sues candidates, não apenas de uma combinação de representatividade e partido ou de frases de efeito engraçadas.