Algumas dicas básicas sobre evitar vocabulário e retórica capacitista

Aviso de conteúdo: Capacitismo, palavras estigmatizadas capacitistas, discussão de/menção a outras opressões, menção a rede social centralizada

Naveguei só um pouquinho no Twitter, e já tive que ler um monte de merda capacitista, inclusive de gente se defendendo de capacitismo usando capacitismo.

Então aqui estão alguns fatos, para pessoas que sabem pouco sobre o assunto:

Para facilitar, usarei neurodivergente/ND como sinônimo de qualquer pessoa que não é neurotípica/NT. Ou seja, isso vai incluir quaisquer pessoas com deficiências/transtornos/doenças mentais e pessoas que são neuroatípicas (com A no meio). Lembrando que todos estes termos só devem ser usados para pessoas que se identificam com eles.

1) Usar palavras que trazem o sentido de "estar num estado mental fora do comum" para apontar que pessoas são perigosas ou ridículas contribui com o estigma de que pessoas neurodivergentes são perigosas ou ridículas.

Isso inclui: chamar uma radfem de louca, chamar um político de maluco, dizer que tal grupo está delirando, etc. Eu já diria que qualquer uso de louque/maluque/doide ou de palavras similares é uma referência a isso.

2) Os chamados "transtornos de desenvolvimento" são reais, e ser diagnosticade com um deles não necessariamente significa que a pessoa é incapaz de aprender qualquer coisa ou vai ter tendência a ser reaça.

Adicionalmente, escrever mal ou falar de forma "estranha" não necessariamente é sinal de não saber das coisas.

Portanto, evite:

a) Usar autista, down, "acho que está no espectro", "especial", etc. como xingamentos ou sinais de que algo/alguém é ruim/infantil;

b) Usar termos como imbecil, idiota, retardade, mongol (este também é racista), débil mental e outros como xingamentos ou sinais de que algo/alguém é ruim/infantil;

c) Julgar pessoas ou fazer piadas em cima delas por conta de escreverem, falarem ou se expressarem mal (isso também pode entrar em xenomisia, dependendo do motivo);

d) Fazer piadas EsCrEvEnDo AsSiM pArA mOsTrAr QuE aLgO é RiDíCuLo, ou usando "hurr durr" ou onomatopeias similares.

3) Usar nomes de neurodivergências como xingamento ou traço de personalidade não é legal.

Isto é: você não é autista por gostar de desenhos animados, não tem TOC porque gosta de ter a casa limpa, não tem "transtorno de personalidades múltiplas" (o nome atual é transtorno dissociativo de identidade, ou multiplicidade se você quer englobar uma gama maior de experiências onde há mais de uma pessoa num corpo) porque muda de opinião frequentemente, etc.

Se você sinceramente acha que é neurodivergente, sugiro pesquisar mais a fundo do que estereótipos vazios, falar com pessoas que se identificam com essas experiências de forma séria, etc.

E isso aqui também inclui xingar pessoas, ideias ou qualquer outra coisa usando palavras como bipolar, narcisista, esquizofrênique, paranóique, anoréxique e fóbique.

É, pois é, a palavra homofobia foi cunhada para ser uma fobia. E o sufixo fobia para opressões é sim muito utilizado para ligar intolerância com neurodivergência.

Eu posso sugerir como alternativas se referir ao sistema em geral ("homofobia" → heterossexismo, ou duaricismo dependendo do contexto, "transfobia" → cissexismo), usar -misia, que significa ódio (homomisia, transmisia), usar -intolerância (homointolerante, transintolerante) ou usar discriminação/opressão contra o grupo/anti-grupo (discriminação contra lésbicas e pessoas gays, opressão anti-trans, etc).

4) Rótulos de "funcionamento" são capacitistas.

Cada pessoa possui forças e fraquezas em diferentes áreas, e neurodivergências também funcionam desta forma. Uma pessoa que é autista pode não ter problemas para falar bastante, mas ter muitos problemas em entender regras sociais, e outra pessoa também autista pode quase não falar, mas entender regras sociais mais facilmente.

Geralmente são pessoas de fora que dão o rótulo de "tal coisa leve/fraca" ou de "tal coisa pesada/forte/profunda", e estes geralmente só se aplicam a como a pessoa se expressa por fora, e não ao que estão passando por dentro.

E, geralmente, as pessoas "de alto funcionamento", "com Asperger, não autistas", "com transtorno leve", etc. têm suas dificuldades e seu ativismo negades; afinal, são "quase neurotípicas".

Enquanto isso, as pessoas "de baixo funcionamento", "com síndrome de Down forte", "com ansiedade profunda", etc. geralmente não são consideradas dignas de saber o que é melhor para si e/ou não são levadas a sério. Afinal, e se a pessoa achar que sabe algo que não sabe por conta de alucinações? E se a pessoa for deixada sozinha por um tempo e depois não souber fazer algo básico, mesmo que a pessoa esteja dizendo que sabe?

Estes dois grupos geralmente são pessoas do mesmo grupo em circunstâncias diferentes. Toda pessoa vai ter aspectos que é capaz ou incapaz de fazer certas coisas. A divisão só incentiva que pessoas neurodivergentes sejam constantemente duvidadas pela sociedade neurotípica.

5) Inteligência é um conceito capacitista, entre outras coisas.

Pessoas inteligentes são, afinal, as que se adaptam bem à sociedade, as que tiveram acesso a conhecimento por meio de boas escolas, bons livros e circunstâncias que permitiram que elas tirassem proveito disso. São as pessoas que conseguem falar/escrever de forma fluida e sem enrolação (algo que muitas pessoas neurodivergentes ou mesmo deficientes físicas podem não conseguir fazer).

São as pessoas cujas habilidades são valorizadas por homens brancos, afinal habilidades vistas como "de mulher" ou que são valorizadas em culturas que não sejam a branca ocidental não têm tanto valor.

São as pessoas que conseguem esconder sua dor e parcialidade e "argumentar de forma racional", mesmo que pessoas marginalizadas estejam completamente justificadas em terem raiva, tristeza ou outras emoções por conta de sua marginalização.

Enfim, tudo isso significa que medições de inteligência em geral são discriminatórias. Isso inclui se identificar como sapiossexual (mesmo que de brincadeira porque você "não aguenta mais gente burra"), classificar os níveis de inteligência alheios (inclusive os de pessoas intolerantes e os de pessoas que você gosta), e usar xingamentos baseados em "não ter inteligência" (burre, e vários da seção que fala de xingamentos contra pessoas com neurodivergências consideradas transtornos de desenvolvimento).

Em geral, piadas envolvendo ter cérebro pequeno/grande também caem na categoria de serem capacitistas por medirem inteligência.

6) Pesquisem xingamentos em geral antes de utilizá-los!

Isto não é bem um fato, mas é algo útil.

Se você não xingaria alguém de viado ou bicha, mesmo como palavras totalmente fora do contexto de chamar alguém de gay, porque isso contribui com homomisia, por que é aceitável xingar alguém de burre, maluque ou imbecil?

Babaca é um termo de origem banta que significa vagina. Imbecil e estúpide significam "desprovide de inteligência". Uma pessoa doida "apresenta indícios de loucura". Alguém insane "não possui o domínio de suas capacidades mentais". Alguém demente "sofre de algum tipo de distúrbio mental".

Talvez no seu círculo ninguém preste atenção a isso, mas em outros círculos sim.

Como uma observação final, não, ninguém precisa vir me explicar que é possível ser capacitista sem usar palavras estigmatizadas ou memes capacitistas, ou que existem pessoas que morrem por expressar sintomas de neurodivergência em público e serem assim vistas como perigosas.

Porém, a ideia de que capacitismo tem só a ver com "reclamar de termos que todo mundo usa" não vem do que pessoas que são deficientes/neurodivergentes falam, e sim de pessoas tentando silenciar ativismo anti-capacitista tanto por tentar reduzir capacitismo a termos inapropriados quanto por então dizer que qualquer ume que fala contra o uso de palavras estigmatizadas e retóricas capacitistas não deve ser levade a sério.

É possível ser contra mais de um tipo de opressão/discriminação ao mesmo tempo.