Tudo, ou pelo menos muita coisa, sobre linguagem pessoal

Um texto para resolver dúvidas de quem ainda não entende porque este conceito é fundamental para respeitar pessoas fora da norma

Este texto tem a intenção de trazer a pauta de conjuntos de linguagem (focando em conjuntos de linguagem pessoal) para pessoas que podem não ter tido muito contato com o assunto antes. Porém, ele ainda presume conhecimento sobre as seguintes coisas, que talvez algumas pessoas que passem por este texto ainda não tenham tido contato:

  1. Os termos cis, não-cis, cisdissidente e trans aparecem neste texto. Para entender com detalhes o que os termos cis e trans significam, procure-os neste glossário. Já os termos não-cis e cisdissidente são sinônimos, e se referem a qualquer pessoa que não seja cis (o que inclui pessoas trans).

  2. O termo normas de gênero se refere às normas esperadas para determinado gênero pela sociedade. No caso de sociedades brancas ocidentais, geralmente se espera que mulheres sejam delicadas, sensíveis, vaidosas e boas donas de casa, e que homens escondam a maioria de seus sentimentos, gostem de esportes e sejam agressivos. Estes são exemplos de normas de gênero, mas elas também envolvem roupas, brinquedos, empregos e outras coisas que supostamente são "apropriadas para cada gênero". Pessoas que quebram várias destas normas podem se chamar de não-conformistas de gênero.

  3. Identidade de gênero é algo pessoal, que não vai ter necessariamente nenhuma relação com corporalidade/sexo, normas de gênero, influências externas, aparência ou formas de agir ou de se vestir. Identidade de gênero não é algo exclusivo de pessoas não-cis; homem e mulher são identidades de gênero (enquanto cis e trans são modalidades de gênero). Caso queira ler mais sobre o que é gênero, clique aqui.

  4. Respeitar as identidades de gênero de todas as pessoas é importante. Identidades de gênero fazem parte da cultura de cada lugar e da identidade pessoal, e negar a identidade de gênero de alguém (por conta da pessoa não cumprir as normas de gênero associadas com seu gênero, não ter uma aparência cisnormativa, ter uma identidade de gênero incomum ou difícil de explicar, "ser nova/velha demais pra isso" ou qualquer outro motivo) pode ser causar danos sérios à saúde mental de alguém, especialmente quando isso acontece com frequência.

  5. Trolls, na maioria dos contextos de discussões na internet, são pessoas que insistem em incomodar outras pessoas de forma persistente, geralmente na internet. As ações de trolls podem ser descritas como trollagem. Uma trollagem comum em meios ativistas envolve tentar enganar pessoas "de fora" sobre o que grupos marginalizados são ou querem (espalhando suposições de má fé ou fingindo ser uma caricatura ridícula de alguém do grupo).

  6. A maioria das outras coisas citadas que podem não ser de conhecimento geral possuem explicações logo após sua primeira menção, ou links para textos que explicam ao que tais coisas se referem.



Linguagem pessoal é algo que quase todo mundo que consegue se comunicar em alguma língua com "gêneros gramaticais" tem.

Sim, mesmo pessoas que nunca pensaram sobre o assunto e que são completamente alheias a comunidades NHINCQ+ (Não-Hétero, Intersexo, Não-Cis, Queer, etc). Sim, mesmo pessoas que dizem que é pra evitar quaisquer sinais desses gêneros gramaticais para falar delas. Sim, mesmo pessoas que não possuem nenhuma preferência em relação à linguagem.

As únicas pessoas que considero que não possuem alguma linguagem pessoal são as que ainda não têm certeza de que linguagem querem usar.

E, por isso, é importante ter noção de como usar e respeitar qualquer tipo de conjunto de linguagem.

Mas ok, vou tentar começar isso do início, e explicar o que são conjuntos de linguagem para pessoas que não estão familiarizadas com o assunto.

"O que é um conjunto de linguagem?"

Em lugares aonde a língua portuguesa é a padrão, é comum ensinarem crianças que existem jeitos diferentes de se referir às pessoas: a forma "masculina" quando a pessoa "é homem", e a forma "feminina" quando a pessoa "é mulher". (Vou explicar as aspas depois.)

A forma "masculina" seria composta de palavras como o, ele, moço, este, ator, professor, guri, pai, filho, namorado e bom.

A forma "feminina" seria composta de palavras como a, ela, moça, esta, atriz, professora, guria, mãe, filha, namorada e boa.

Deste modo, poderíamos dizer que existe um conjunto de linguagem "masculino" e outro "feminino", que uniriam estas palavras citadas. No caso destes conjuntos especificamente, isso é chamado de gênero gramatical, e eles são literalmente descritos como masculino e feminino.

Mas esta questão não termina aí, e também não acho que gênero gramatical descreva bem todos os conjuntos de linguagem existentes.

Mesmo que exista esta associação de certas palavras com certos gêneros ou estereótipos relacionados a gênero, não existe alguma razão universal pela qual certas palavras precisem ser usadas para pessoas masculinas, homens, pessoas femininas ou mulheres.

Saias ou cabelos compridos não precisam ser necessariamente "coisas femininas", ternos ou cabelos curtos não precisam ser necessariamente "coisas masculinas". Estas são só decisões que foram feitas em certos lugares e períodos, e que nem são presentes em todas as culturas.

Também por conta disso, é importante ter formas de descrever tais conjuntos de linguagem de formas que não usem feminilidade ou masculinidade como ponto de partida. Temos nomes específicos para roupas, partes do corpo e cores de forma que não tenhamos que usar vocabulário vago e arbitrário como feminine ou masculine para nos referirmos a elas, então faz sentido ter formas de descrever linguagem de forma que não se apoie nestas palavras.

Existe mais de um jeito de pessoas se referirem a tais conjuntos, como a/ela/a e o/ele/o, ela/dela e ele/dele, ela/a e ele/o e a/uma/da/ela/dela/minha/essa/a e o/um/do/ele/dele/meu/esse/o.

Quando uma pessoa quer ser referida com um certo conjunto de linguagem, dizemos que tal pessoa usa tal conjunto, ou que certo conjunto de linguagem é o conjunto daquela pessoa. Por exemplo:

  • Eu sou o Marco. Eu uso o/ele/o.

  • Aquele é o Marco. O conjunto de linguagem dele é o/ele/o.

Eu vou explicar mais sobre o que exatamente significa a/ela/a, o/ele/o e afins depois. O que importa agora é que, independentemente dos modelos usados, conjuntos de linguagem vão muito além destes dois.

"Por que precisamos de conjuntos de linguagem além dos previstos pela língua portuguesa?"

A existência de um binário estrito de conjuntos de linguagem baseado em gênero causa diversos problemas:

  • Quando não se sabe qual o gênero de uma pessoa ou de um animal, que conjunto de linguagem devemos usar?

  • Quando existem grupos formados por seres de gêneros diferentes, como devemos nos referir ao grupo?

  • Quando alguém não é nem homem e nem mulher, como nos devemos nos referir a tal alguém?

(Acho importante notar que todos estes problemas são relacionados com seres vivos. Poucas pessoas se importam com o uso de a/ela/a para cadeiras e geladeiras e de o/ele/o para sofás e ventiladores, e se alguém tentar te convencer de que aceitar mais linguagens também tem a ver com usar conjuntos de linguagem diferentes para objetos ou até mesmo para nomes de espécies, é bem provável que tal pessoa esteja trollando.)

As soluções propostas que envolvem a língua padrão são frequentemente desumanizadoras (ver: "quem não se encaixa nessas linguagens não importa"), pouco práticas (ver: "é só descrever essas pessoas e esses grupos de forma indireta o tempo todo"), machistas (ver: "o/ele/o já é um conjunto neutro") ou exorsexistas (ver: "não existe essa coisa de não ser homem nem mulher").

Por conta disso, surgiu algo chamado de neolinguagem, um conceito que engloba quaisquer palavras alternativas que não são previstas pelos gêneros gramaticais padrão.

Algumas pessoas começaram a usar para substituir a ou o em palavras como el@ ou tod@s nas últimas décadas, mas como era apenas uma substituição para os dois conjuntos padrão, esta solução foi considerada pouco inclusiva. Mais tarde, surgiu a ideia de usar x para fazer a mesma coisa, mas a maioria das pessoas não entendia que a pronúncia da letra teria que ser muda, e programas que leem telas para quem não as enxerga sempre pronunciava o x nos finais das palavras como "cs".

Depois disso, foram sugeridas tanto propostas para "neutralizar a língua" de forma pronunciável quanto propostas de diversidade de conjuntos de linguagem, para que cada pessoa possa escolher o que fica mais confortável para si. E todas estas possibilidades que não se encaixam nos gêneros gramaticais previstos pela língua padrão são consideradas parte da neolinguagem.

Este texto é especificamente sobre linguagem pessoal (a linguagem que cada pessoa usa), e não sobre linguagem neutra (uma linguagem ideal para usar quando a linguagem de alguém ou de algum grupo é indeterminada). Eu listei estas questões importantes de linguagem neutra por serem relevantes, mas se você quiser saber mais sobre como deixar de usar o/ele/o como linguagem neutra, as postagens que você quer são esta, esta e esta.

A maioria das pessoas que usa neolinguagem como parte de seu conjunto de linguagem pessoal são não-binárias, ou seja, não estritamente homens e nem estritamente mulheres. Existem vários gêneros diferentes que não são homem nem mulher, assim como pessoas sem gênero, com vários gêneros, que mudam de gênero de tempos em tempos e que possuem noções fracas ou vagas de seu gênero, entre outras. Mesmo assim, pessoas binárias (que são estritamente e completamente homens ou mulheres) também podem querer usar conjuntos de linguagem pessoal fora dos padrões, geralmente por já estarem quebrando outras normas de gênero.

"Mas por que não decidir em um gênero gramatical/conjunto de linguagem neutro e usar ele?"

  • A ideia de que dois gêneros específicos tenham conjuntos de linguagem específicos associados a si, enquanto pessoas de todas as outras centenas de identidades possíveis tenham apenas um conjunto associado a elas, é dar a ideia de que gêneros/arquétipos binários são simplesmente mais importantes e merecedores de atenção.

  • Se tal conjunto neutro ainda por cima for também associado com não saber o gênero de alguém, isso dá a entender que qualquer pessoa que não seja binária ou que rejeite linguagens associadas a gêneros binários esteja num limbo de indeterminação de gênero. Isso pode ser algo legal para algumas pessoas, mas a ideia de que pessoas não-binárias só estão indecisas sobre seu gênero é um preconceito comum que não deveria ser reforçado.

  • Muitas pessoas podem não querer ter um conjunto de linguagem que passa uma impressão de neutralidade ou de indeterminação de gênero, e sim algo que passe a impressão de masculinidade não-binária, feminilidade não-binária, xeninidade, maveriquinidade ou outras características.

  • Não existe nenhuma proposta de conjunto de linguagem neutro que tenha o apoio de todas as pessoas dentro ou fora de comunidades que propõem um conjunto neutro universal. Não faz sentido alguém se sujeitar a ser referide por um conjunto de linguagem do qual não gosta muito quando isso não aumenta as chances de outras pessoas usarem tal conjunto de linguagem.

Um pouco sobre sistemas usados para descrever conjuntos

Agora que expliquei que 1) neolinguagem já existe, já está em uso, e não faz sentido fingir que não é necessária e que 2) conjuntos de linguagem são diversos, acho importante explicar como estes vão ser descritos.

Neste texto, e em outros textos, o esquema que uso é artigo/pronome/final de palavra (este também pode ser chamado de terminação ou de flexão).

O artigo (nome técnico: artigo definido da forma singular) é o que se usa na frente do nome da pessoa, ou de algo que substitui o nome da pessoa mas que usa seu artigo.

Ao escrever "o João", "a advogada", "ê artista" e "le professore", as palavras o, a, ê e le estão cumprindo a função de artigo. A e o são artigos previstos pela língua, mas ê e le são neoartigos.

O pronome (nome técnico: pronome pessoal reto da terceira pessoa do singular) é o que se usa para substituir o nome da pessoa e fazer certas contrações.

Ao escrever "ela é forte", "isso é dele", "estou pensando nelu" e "ile é legal", os pronomes que estão sendo usados são ela, ele, elu e ile, respectivamente. Ela e ele são pronomes previstos pela língua, enquanto elu e ile são neopronomes.

O final de palavra (nome técnico, mas este deve ser evitado por motivos já citados: flexão de gênero) é o que se usa no final das palavras que mudam entre a e o dentro dos conjuntos de linguagem previstos pela língua padrão.

Ao escrever "médica", "amigo", "linde" e "cozinheiry", os finais de palavra que estão sendo usados são a, o, e e y, respectivamente.

Então, ao definir os três elementos, eles podem ser unidos nesta ordem, com barras entre eles. Então podemos ter a/ela/a, o/ele/o, ê/elu/e, y/ély/y, i/éli/i, le/ile/e e uma série de outras possibilidades.

Quando alguém não quer que algum elemento seja usado, um traço é usado (por exemplo, uma pessoa que não quer que usem um artigo para ela pode usar -/elu/e, e alguém que quer que seu nome seja usado ao invés de pronomes pode usar i/-/i).

Quando qualquer coisa serve no lugar de certo elemento, a pessoa pode usar [q], [qlq], [qqr] ou similar no lugar do elemento (por exemplo, alguém cujo conjunto é [qlq]/ile/e vai aceitar a, o, ê, e, le, y, i, il ou qualquer outra coisa como artigo).

Quando alguém quer que fiquem trocando o que usam no lugar de certo elemento, a pessoa pode usar [r], [rtt], [rot] ou similar para indicar um elemento rotativo (por exemplo, alguém cujo conjunto é -/éli/[rtt] quer que troquem o final de palavra que usam para éli com frequência).

Quando uma pessoa quer só indicar algum elemento alternativo no conjunto, ao invés de escrever um conjunto separado, a pessoa pode usar parênteses, chaves ou similar e vírgulas para indicar as possibilidades. Por exemplo, alguém pode preferir escrever sua linguagem como -/(ily, ile)/y ao invés de -/ily/y e -/ile/y.

Em relação a outros jeitos de falar sobre conjuntos de linguagem:

  • Usar "linguagem feminina/masculina/neutra" não é muito legal, tanto por reforçar normas de gênero (e se uma pessoa quiser usar o/ele/o sem ser masculina?), quanto por ser vaga (e se uma pessoa quiser usar o/elo/o, é uma linguagem masculina? E e/ele/e? E se alguém usar linguagem neutra, a pessoa está usando x/elx/x, le/elu/e, ê/elu/e, -/ile/e, -/-/- ou o quê?), quanto por excluir pessoas (por que temos que dizer que uma pessoa sem gênero que está usando a/ela/a porque é a linguagem associada com a palavra pessoa está usando uma linguagem feminina?); mais sobre isso aqui e aqui, e também existe este texto sobre como usar linguagem neutra é algo muito vago.

  • Usar "elu/delu" e afins também não é muito legal; ocupa mais caracteres do que e/elu/e, usa tal espaço para uma informação que vai ser supérflua quase 100% do tempo, e não sinaliza informações como o final de palavra, algo praticamente fundamental para se referir a alguém na língua portuguesa. Fiz um texto inteiro sobre isso aqui.

  • Colocar só o pronome e o final de palavra funciona bem para pessoas que estão dentro das linguagens padrões, mas visto que existem muitas opiniões diferentes sobre que artigos deveriam ser usados para quem tem final de palavra e e/ou pronome elu, acho que faz sentido que cada pessoa possa explicitar seu próprio artigo, ao invés de utilizarmos a presunção de que ele será sempre igual ao final de palavra.

  • Eu entendo a utilidade de oferecer mais informações sobre a própria linguagem, e dou meu apoio a qualquer pessoa que quiser colocar a/uma/da/ela/dela/minha/essa/a ao invés de a/ela/a em seu perfil, mas para propósitos como citar conjuntos em textos ou em lugares com pouco espaço, acho importante ter a possibilidade de resumir um conjunto em três ou quatro elementos.

  • Se alguém tiver interesse em como foi feita a escolha dos elementos artigo, pronome e final de palavra, já escrevi um texto sobre isso também.

Entendo que podem haver dúvidas sobre como outras particularidades de conjuntos de linguagem funcionam, mesmo tendo explícito o artigo, pronome e final de palavra de alguém. Algumas dessas serão explicadas mais tarde, mas por enquanto acho mais importante haver esta noção do que significam estes conjuntos do que entender como funcionam de forma mais detalhada na prática.

"Como saber qual o conjunto de linguagem que alguém usa?"

Conjunto de linguagem, assim como identidade de gênero, são características frequentemente presumidas, mas que, idealmente, não deveriam ser.

Tanto homens quanto mulheres quanto outras pessoas podem usar quaisquer tipos de roupas e acessórios, e ter qualquer tipo de cabelo, voz, corpo, personalidade e gostos. A ideia de que é possível julgar alguém como homem ou como mulher se baseando em aparência, documentos ou em como a pessoa se comunica é baseada em estereótipos de gênero e de sexo, e prejudica pessoas trans, intersexo, não-binárias e/ou que não seguem as normas associadas com seus gêneros.

Da mesma forma, não há como presumir que conjunto de linguagem alguém usa sem a pessoa dizer qual conjunto usa. Mesmo indicadores como homem ou mulher nem sempre significam que a pessoa usa a linguagem comumente associada com tal gênero.

É possível alguém se referir a si e assim revelar alguma parte de sua linguagem (geralmente o final de palavra, em frases como "estou atrasade" ou "sou arquiteta"), mas, mesmo assim, pode ser importante considerar que:

  • Aquela pode não ser a única possibilidade do que a pessoa usa (uma pessoa pode usar tanto a/ela/a quanto o/ele/o, por exemplo);

  • A pessoa pode querer usar certos conjuntos para se referir a si mesma, mas não querer que outras pessoas usem a mesma linguagem (porque a pessoa está questionando, é insegura, erra a própria linguagem com frequência, tem medo de ser vista como estranha se usar neolinguagem em público, está ok com usar uma linguagem binária para si mas vê a mesma linguagem vinda de outras pessoas como uma forma de presumir que a pessoa tem um gênero binário, etc.);

  • A presença de certo artigo, pronome ou final de palavra não infere outros elementos (pessoas podem usar -/elo/o, -/ele/e, a/ila/a, -/ila/e, u/elu/u, ê/elu/e, etc).

Caso a comunicação entre você e a outra pessoa seja privada, eu não acho indelicado perguntar sobre seu(s) conjunto(s) de linguagem. Também é possível que a pessoa tenha ele(s) disponível(is) em algum perfil online.

Porém, em situações públicas, pode ser indelicado fazer esta pergunta, não apenas porque a maioria das pessoas (infelizmente) quer que você presuma, mas também porque uma pessoa pode ter que escolher entre sair do armário contra a própria vontade e ter a linguagem errada sendo usada para si.

Neste caso, pode ser importante a adoção de alguma linguagem neutra para ser usada para todo mundo que você não conhece, como -/-/- ou e/elu/e.

Mesmo assim, é importante que você ou use esta linguagem neutra para todas as pessoas que você não sabe a linguagem, ou para nenhuma. É um problema só usar isso quando você pensa que há uma possibilidade da pessoa ser trans, não-binária e/ou não-conformista de gênero.

Caso você esteja organizando algum espaço que seja seguro para pessoas cujos conjuntos de linguagem são presumidos erroneamente com frequência (o que inclui não ser seguro para pessoas que acreditam que gênero e linguagem devam sempre ser presumidos e/ou baseados em gênero/sexo), você pode oferecer formas de pessoas expressarem seus conjuntos.

Em espaços online, isso significa encorajar que pessoas disponibilizem seus conjuntos em introduções, nomes de tela e/ou espaços no perfil. Em espaços físicos, isso significa pedir conjunto de linguagem na introdução de cada pessoa e/ou disponibilizar adesivos para escrever conjuntos e encorajar que mesmo pessoas "cuja linguagem é óbvia" os digam/usem. Guias e/ou explicações sobre como tais conjuntos funcionam também devem estar disponíveis.

É importante lembrar que nem todas as pessoas podem querer disponibilizar seus conjuntos, por mais seguro que seja o espaço. Enquanto isso é um problema quando são pessoas binárias conformistas de gênero que afirmam que sua linguagem deve ser presumida, obrigar pessoas a escolher um conjunto de linguagem pode ser um problema para pessoas no armário, inseguras sobre que linguagem querem, que sentem disforia de gênero ao terem que dizer seus conjuntos de linguagem, etc.

Sugiro encorajar pessoas a não usarem nenhuma linguagem específica ao se referir às pessoas do grupo que não querem disponibilizar seus conjuntos de linguagem.

E, novamente, estas coisas precisam ser encorajadas para todas as pessoas, e não apenas quando houverem pessoas não-cis e/ou não-conformistas de gênero no grupo.

Caso você ou o grupo esteja lidando com gente no armário, talvez seja interessante que pessoas disponibilizem uma linguagem para ser usada dentro do grupo e outra fora do grupo.

"Como eu posso disponibilizar meu conjunto?"

Se você se sente confortável e segure para fazer isso, você pode colocar em biografias ou similares de perfis de redes sociais/fóruns/programas de chat/etc., em apelidos de programas de chat, ou em outros lugares que pessoas podem conferir para saber como podem se referir a você e/ou informações básicas sobre você.

Em espaços físicos, você pode usar buttons, camisetas, bordados, crachás, adesivos ou outros indicadores. Você também pode se apresentar falando do seu conjunto de linguagem (como em "sou Miriam, uso a/ela/a").

A maioria das pessoas não sabe como funciona a questão de artigo/pronome/final de palavra, então é provável que você tenha que explicar, especialmente se seu conjunto contém neolinguagem e portanto não é visto como "lógico" pela maioria.

"Que conjuntos eu posso ter?"

Qualquer pessoa pode ter quantos conjuntos quiser, e eles podem ser formados pelos elementos que a pessoa quiser. Porém, quanto mais "fora do comum" for o conjunto, menor é a possibilidade de outras pessoas quererem usá-lo.

Existe um certo debate em relação a se pessoas binárias ou cis podem ou não usar conjuntos além dos associados com seus gêneros, ou além de o/ele/o e de a/ela/a. Eu não vejo problema em uma pessoa cis querer usar conjuntos como le/elu/e ou -/ila/a ou afins, desde que isso seja feito com respeito.

Acredito que pessoas binárias possam querer usar conjuntos além dos associados com seus gêneros pelos seguintes motivos, por exemplo:

  • Suas expressões de gênero (ou seja, como se vestem, agem, etc.) não se encaixam com as expressões ditadas pelas normas de gênero, e tais pessoas podem querer usar um conjunto de linguagem que seja mais relacionado com sua expressão de gênero do que com sua identidade de gênero;

  • Se forem pessoas trans, podem não querer se abrir como trans ou dar sinais de que não são do seu gênero designado, e assim usar outro conjunto para disfarçar isso;

  • Se tiverem preocupações com privacidade, misoginia ou outras questões, podem usar um conjunto de linguagem diferente em certos espaços para criar uma impressão diferente de sua identidade;

  • Essas pessoas podem estar se questionando sobre sua identidade de gênero e usar linguagem pessoal como uma forma de experimentar possibilidades para suas identidades;

  • Essas pessoas podem simplesmente gostar muito de algum conjunto de linguagem sem saber explicar o motivo, e querem que ele seja usado para elas.

Mesmo assim, acho que alguns cuidados devem ser tomados por pessoas que usam certos conjuntos de linguagem só por diversão ou curiosidade, sem se importar tanto quando pessoas usam a linguagem errada ou associada com seu gênero:

  • A experiência de uma pessoa cis que não se importa com a linguagem associada com seu gênero mas que também usa outro(s) conjunto(s) é diferente da experiência de alguém cisdissidente que encontra dificuldades em ter pessoas aceitando sua linguagem. Maldenominação (o uso do conjunto de linguagem errado) dói muito mais quando usar o conjunto certo é importante e fundamental para a pessoa.

  • Pessoas cis não possuem uma experiência "meio trans" só por usarem conjuntos de linguagem além dos esperados. Pessoas trans binárias não possuem uma experiência "meio não-binária" por usarem ou terem usado conjuntos de linguagem além dos esperados. Embora algumas experiências possam ter sido parecidas, pessoas que são de um grupo internalizam muito mais o ódio contra o grupo do que pessoas que são ou foram confundidas com tal grupo.

  • Pessoas não estão sendo mais inclusivas por aceitarem qualquer conjunto de linguagem, ou por aceitarem algum conjunto que consideram neutro além do conjunto associado com seu gênero. Isso só lembra pessoas fora dos padrões de que algumas pessoas podem ficar "brincando" com seus conjuntos o quanto quiserem e serem maldenominadas sem grandes consequências. (E potencialmente ensina pessoas dentro do padrão de que ninguém deveria se importar com linguagem, sendo que pessoas fora do padrão são as que vão sofrer mais com isso.)

Basicamente: se você quiser usar algum conjunto além do associado ao seu gênero, não vejo problemas em você usar, mas isso não te dá "pontos" de inclusividade ou de cisdissidência. Se o motivo para você usar outros conjuntos for "quero saber como pessoas trans se sentem", "quero saber como pessoas não-binárias são tratadas" ou "quero mostrar que ninguém deveria se importar com conjuntos de linguagem", repense, porque isso será visto como algo ofensivo e que não ajuda a causa de ninguém.

"E se o conjunto de alguém for difícil de usar ou de lembrar?"

Em primeiro lugar, nunca diga a alguém que é muito difícil usar seu conjunto e que você pode demorar para se acostumar (ou similar). Pessoas como eu estão acostumadas a ouvir isso de praticamente qualquer pessoa binária que acabou de ser informada sobre nossos conjuntos.

Sim, neolinguagem, conjuntos fora do padrão esperado ou mesmo a possibilidade de você ter usado outro conjunto para a pessoa por anos antes de receber a informação sobre a pessoa estar usando outro conjunto são coisas difíceis de se lidar. Para todo mundo! Até a pessoa que escolheu o próprio conjunto de linguagem pode errar ocasionalmente. E eu garanto que até ativistas "super desconstruídes" muitas vezes maldenominam pessoas que não usam os conjuntos que elus internalizaram que tais pessoas deveriam usar, mesmo sem querer.

Mas é horrível ter que ouvir isso tantas e tantas vezes. Qualquer pessoa que é maldenominada com frequência sabe que são poucas pessoas que vão sequer tentar usar o conjunto de linguagem certo. Qualquer pessoa que é maldenominada com frequência sabe que pessoas bem intencionadas vão tentar usar o conjunto certo mas ainda podem errar de vez em quando, especialmente no início. Ser maldenominade já dói, e ter que lidar com um eufemismo para "sua identidade é inconveniente pra mim e talvez eu nem tenha capacidade para respeitar ela direito" ao conhecer ou se abrir para qualquer pessoa nova só contribui com essa dor.

Enfim, aqui estão algumas dicas para lidar com conjuntos que não são intuitivos para você:

  • Você pode aproveitar es seguintes dicas e exercícios: 1, 2 3;

  • Você pode ver como conjuntos são usados no contexto de certas frases aqui;

  • Você pode tentar falar sobre a pessoa para outras pessoas usando a linguagem certa, para as consequências não serem tão grandes caso você erre a linguagem da pessoa;

  • Você pode chamar algumas pessoas e propor que por algumas horas cada pessoa ali vai usar algum conjunto com o qual você tem dificuldade, ou fazer algum tipo de roleplay (tipo de jogo ou brincadeira onde você cria ume personagem) e usar algume personagem que usa tal conjunto de linguagem.

  • Você pode praticar o conjunto da pessoa fazendo uma história sobre ume personagem que usa o mesmo conjunto de linguagem.

Se você ainda não estiver conseguindo lembrar/usar o conjunto de alguma pessoa, você pode pedir um conjunto auxiliar, ou seja, um conjunto que a pessoa não prefere que usem, mas que aceita caso não seja possível usar outro.

Porém, se você não consegue nem pensar em ê/elu/e, e/ele/e, -/éli/i, a/ila/a, u/êlu/u ou similares como conjuntos auxiliares satisfatórios, você vai ter que dar um jeito de se acostumar com neolinguagem, usando as dicas acima ou pedindo dicas para outras pessoas (de preferência de forma privada e sem envolver a pessoa afetada).

Se tudo falhar, você pode não usar nenhuma linguagem específica para se referir a quem só usa conjuntos difíceis demais para você.

"Mas se qualquer coisa vale como elemento de conjunto de linguagem, não vão surgir uma série de conjuntos estranhos e impossíveis de usar?"

Em geral, pessoas querem que seus conjuntos de linguagem sejam usados, então é mais provável que alguém com um conjunto incomum use algo como -/ilo/o ou fy/yl/y do que algo como eu/legal/sou ou fsda/vnjisdhf/fh.

A maioria dos artigos usa até duas letras. A maioria dos pronomes tem a letra L no meio ou no fim, e começa com vogal. A maioria dos finais de palavra é feita para funcionar junto a consoantes. A maioria dos conjuntos é feita para ser pronunciável, mas sem que os elementos sejam confundidos com outras palavras.

Algumas exceções a isso são:

  • Neoartigos. É muito difícil conseguir uma ou duas letras que sejam pronunciáveis e que não sejam nenhuma palavra, especialmente se for para combinar com algum pronome e/ou final de palavra. Artigos como e, ne, ny e la parecem palavras existentes ou contrações entre um final de palavra e a palavra em (assim como na e no), enquanto artigos como ze ou ed podem parecer nomes ou partes do nome de alguém.

  • Conjuntos temáticos. Eu nunca vi alguém usar algum deles, mas não duvido que alguém queira usar fo/ogo/o ou an/ane/el ou afins.

  • Pronomes compostos por símbolos ou emojis. Eles são apenas para uso em texto; não há pronúncia em voz alta, a não ser que a pessoa queira fazer uma.

  • Um ou outro uso que já vi por aí de le e ty como pronomes, e também quero incluir aqui quaisquer outros pronomes que começam com consoantes. Isso faz com que palavras como delu, aquelu e nelu possam ficar difíceis ou impossíveis de reconhecer/pronunciar (ex.: dty, nle).

  • Elementos que usam x ou símbolos como e *. X, @, ' e * possuem "pronúncia" muda; a palavra el@ pode ser lida como el, por exemplo. Mesmo assim, não é recomendável usar símbolos em conjuntos de linguagem, especialmente em abundância, por conta de programas que leem telas descreverem o símbolo (como em "el arroba" para el@).

Geralmente, pessoas que querem conjuntos mais difíceis, ou que não podem ser pronunciados, também possuem opções mais fáceis/pronunciáveis.

Novamente, pessoas muitas vezes não conseguem se sentir confortáveis usando conjuntos de linguagem para si que foram feitos para serem "neutros" ou parecidos com os padrões. E, às vezes, tais pessoas acabam se identificando mais com palavras estranhas ou com símbolos que não podem ser pronunciados.

O ponto aqui é que nem todo conjunto de linguagem estranho é "coisa de troll", mas que realmente pode ser meio suspeito se todos os conjuntos de linguagem de alguém forem longos, impossíveis de pronunciar, ou compostos por outras palavras.

Se você legitimamente não consegue usar nenhum dos conjuntos listados de alguém, você pode perguntar por um conjunto auxiliar, ou não usar nenhuma linguagem específica para a pessoa.

Neopalavras não cobertas por artigo/pronome/final de palavra

Se uma pessoa é fotógrafa e usa -/elu/e, usamos "este fotógrafe"?

O consenso geral, até onde sei, é que o certo seria "estu fotógrafe". Mas outra opção seria "éstie fotógrafe", porque podemos utilizar ie no lugar de e em palavras onde a letra é associada com o conjunto o/ele/o.

Uma ideia para pronomes demonstrativos é que se substitua a letra l em um pronome por ss ou st para formar pronomes demonstrativos. Então éli daria em éssi e ésti, el daria em ess e est, ila daria em issa e ista, e assim por diante.

Mas, sinceramente, eu não sei se pessoas que usam ilu querem ser chamadas de istu, ou se pessoas que usam elz querem ser chamadas de essz. Nestes casos, eu recomendo manter a letra e do início e usar o final de palavra (ou ie se tal final de palavra for e), caso não seja possível perguntar para a pessoa o que ela prefere.

Neste caso, a/ila/a daria em essa e esta, enquanto ze/eld/e daria em éstie e éssie (recomendo o primeiro e aberto para diferenciar melhor de este/esse).

Em relação a alternativas a meu/minha e a seu/sua, também existe divisão: algumas pessoas preferem usar as alternativas "universais" mi e su para pessoas de quaisquer finais de palavra fora da norma, enquanto outras preferem minhe e sue, com a letra e podendo ser substituída por qualquer outro final de palavra.

E quanto a letras repetidas? "Su namoradu" ou "suu namoradu"? "Professori não-binári" ou "professori não-binárii"?

Eu pessoalmente prefiro omitir a letra repetida, mas pode ter gente que prefere mantê-la. Mas eu só omito no caso de letra repetida, não de som repetido; eu diria que alguém que usa o final i é não-binári, mas que alguém que usa o final y é não-bináriy.

No caso de alternativas a palavras terminadas em ca, ga, co ou go, caso o início do final de palavra seja i, e ou algo de som similar, recomendo trocar c para qu e g para gu. Então alguém seria ume amigue ou umi médiqui, para manter a sonoridade da palavra.

Artigos indefinidos e contrações que envolvem artigos usam o final de palavra, não o artigo. Alguém que usa ze/elz/e é ume menine, não umze menine. Se alguém usa i/éli/e, palavras como de e ne são usadas ao invés de di e ni.

Caso você vá falar de uma pessoa que usa neolinguagem em outra língua, você vai ter que perguntar para a pessoa o que ela prefere, ou se referir a tal pessoa de forma "neutra" mesmo. Não existe tradução direta de conjuntos de linguagem fora do padrão.

Se você quer saber sobre mais palavras fora do padrão, aqui estão mais recursos sobre este assunto:

De qualquer forma, acho importante lembrar de duas coisas sobre este assunto:

  • Não existem padrões muito bem formados ainda, e até mesmo pessoas que usam neolinguagem em seus conjuntos podem não saber de várias destas coisas, ou não concordar com elas;

  • Errar algo do tipo usar amige ao invés de amigue não vai machucar tanto quanto usar amiga ou amigo. É melhor você improvisar algo que não seja ideal do que se recusar a tentar. Só não se ofenda quando o que você pensou não era a solução ideal!

Pronúncia de neoartigos, neopronomes, etc.

Observação: Esta seção é baseada na minha experiência em conviver com outras pessoas que usam neolinguagem no dia-a-dia. É possível que pessoas usem outras pronúncias para o que está listado aqui, e, especialmente se estivermos falando de linguagem pessoal, acho melhor respeitar os desejos de quem usa o conjunto.

Eu não vou cobrir todas as possibilidades que eu conseguir pensar, e sim apenas as que eu acredito que possam trazer dificuldades com mais frequência.

Sobre letras e combinações pouco comuns na língua portuguesa

A pronúncia de y é igual à da letra i. A pronúncia de w é igual à da letra u.

Ou seja, ila e yla possuem a mesma pronúncia, assim como élu e élw.

A pronúncia de ae (como artigo, final de palavra, ou como parte de pronomes como elae) é ái, mas acredito que talvez isso seja diferente em regiões que não pronunciem o e no final das palavras como i..?

Ocasionalmente, alguém pode ter um final de palavra como s ou z, o que pode formar palavras como menins, escritorz, linds ou receosz. Em geral, as palavras são pronunciáveis; pense em como a maioria consegue pronunciar Halls, McDonald's ou youtubers sem grandes dificuldades. Caso a palavra já termine em som de s/z sem o final de palavra (como em receosz), você pode não pronunciar o final de palavra.

Quando o final de palavra não for pronunciado (indicado por x, ', * ou outra coisa assim), pode acontecer um estranhamento parecido, já que muitas palavras vão efetivamente terminar em consoantes incomuns. Novamente, você vai ter que "suprimir" a última sílaba, não deixando escapar nenhuma vogal após atrasad, amig, frac e afins.

Sobre neoartigos

A não ser que tenham acentuação que diga o contrário, vejo os artigos contendo a com uma pronúncia como á, os artigos contendo e com uma pronúncia como ê e os artigos contendo o com uma pronúncia como ô.

Então ne teria a pronúncia , ze teria a pronúncia , la teria a pronúncia , oa teria a pronúncia Ôa, e assim por diante.

Sobre neopronomes e sílabas tônicas

Neolinguagem, em geral, ainda segue as seguintes regras da língua portuguesa:

  • Toda palavra com mais de uma sílaba possui uma sílaba mais forte do que as outras, e esta é chamada de sílaba tônica. Na palavra máscara, por exemplo, a sílaba é mais forte. Quando há acentuação (á, é, í, ó, ú, â, ê, ô), ela sempre acontece na sílaba tônica.

  • Palavras oxítonas, ou seja, aquelas onde a sílaba final for mais forte (como amor, troféu ou sofá), levam acentuação apenas caso terminem em a(s), e(s), o(s), em(ns), ou nos ditongos abertos éu(s), ói(s) e éi(s).

  • Palavras paroxítonas, ou seja, aquelas onde a penúltima sílaba for mais forte (como túnel, bola ou recado), levam acentuação apenas caso terminem em r, l, n, x, ps, ã(o)(s), um(ns), om(ns), us, i(s), ei(s), ea(s), oa(s), eo(s), ua(s), ia(s), ue(s), ie(s), uo(s) ou io(s).

Ou seja, eli sem acento deve ser uma palavra presumida como oxítona (e-LI), afinal, se fosse paroxítona, haveria um acento (éli se a letra e tiver som aberto, êli se a mesma letra tiver som fechado).

No entanto, existem alguns problemas em fazer a presunção de que é só prestar atenção nas normas gramaticais:

  1. Estas regras não dizem nada sobre paroxítonas que terminam em u, d, y, w, etc.;

  2. Estas regras podem ser ignoradas por pessoas que nem sabem que elas existem, ou que preferem ignorá-las.

O que posso sugerir é tratar y(s) como i(s) eu e w(s) como us nos finais das palavras, e tratar pronomes como elx, eld e eln como palavras de uma sílaba só. Mas isso é o que eu acho mais prático, e não há necessariamente nenhum consenso sobre isso.

Enfim, com isso dito, aqui estão as pronúncias de alguns neopronomes "menos óbvios":

  • ael → "a-ÉU"

  • eld → "éud" ou "ÉU-di";

  • eln → "éun", para o n final você pode pensar em como pronuncia esta letra em palavras como próton;

  • elo → "É-lo", assim como o substantivo elo;

  • els → "éus", pense no final da palavra céus;

  • elu → "e-LÚ", mas muita gente usa "Ê-lu", o que acho meio sacanagem considerando que é pra ser uma proposta de "pronome neutro" sendo que está pendendo muito pra algo associado com "ele" com esta pronúncia. Caso você queira usar "Ê-lu", sugiro simplesmente usar êlu.;

  • ely → "e-LY". Novamente, recomendo usar ély ou êly se você quer outra pronúncia;

  • elx → "éu";

  • elz → "éuz";

  • ile → "I-le";

  • ili → "i-LÍ";

  • ilo → "I-lo", pense no final da palavra aquilo;

  • ilu → "i-LU", mas ao menos esse aqui acho menos absurdo se quiserem pronunciar como "I-lu".

Palavras com mudança de som entre finais de palavra a e o

Senhor e senhora, assim como receosa e receoso, mudam o som da letra o dependendo do final de palavra.

Eu sinceramente não sei se existe uma regra gramatical que explique isso de forma que possa ser usada para cobrir outros finais de palavra. Ou se alguém se importa se pronunciarem receosae ou senhory ou afins de forma que corresponda com o som usado para um final de palavra que a pessoa não usa.

Dicas finais para pessoas que querem ajudar pessoas com conjuntos de linguagem fora dos padrões esperados

(Algumas das dicas já foram mencionadas em outras seções, considere este um resumo final.)

  • Quando possível, e em relação a pessoas fora do armário, corrija pessoas usando a linguagem errada para quem você conhece. Isso tira um pouco do peso de pessoas que geralmente são maldenominadas e que precisam ficar corrigindo para não serem.

  • Ensine pessoas sobre artigo/pronome/final de palavra e apresente sua linguagem/fale sobre conjuntos de linguagem desta forma. Assim, pessoas cujos artigos, finais de palavra e/ou pronomes não são tão óbvios podem ter chances maiores de serem entendidas ao mencionarem seus conjuntos. Guias rápidos que podem ser referenciados podem ser encontrados aqui e aqui.

  • Caso você esteja segure para fazer isso, disponibilize seus conjuntos de linguagem pessoal em perfis, introduções, páginas, crachás, etc.

  • Não presuma conjuntos de linguagem pessoais alheios; use alguma forma de linguagem neutra universal para pessoas de conjuntos desconhecidos. Isso inclui pessoas com qualquer aparência. Não faça isso só para quem você acha "fora da norma" o suficiente.

  • Não pergunte sobre conjuntos de linguagem pessoais em situações que podem ter que fazer alguém ter que decidir entre ser maldenominade e sair do armário.

  • Se você estiver em uma conversa privada com alguém que você mal conhece e meio que precisa saber do conjunto de linguagem da pessoa, você pode reforçar que aquele conjunto é só para aquela conversa e que está tudo bem se a pessoa decidir por outro conjunto no futuro.

  • Respeite que algumas pessoas podem não querer disponibilizar seus conjuntos de linguagem, mas também lembre-se de que algumas pessoas só não disponibilizam sua linguagem pessoal porque "é para ser óbvia", e isso deve ser combatido.

  • Não fique pedindo desculpas ou se justificando ao se deparar com um conjunto incomum ou ao errar o conjunto de alguém. Se você errar, corrija casualmente logo em seguida ou ignore e tome nota para acertar da próxima vez.

  • Se você estiver tentando muito e não conseguir usar nenhum conjunto pessoal disponibilizado pela pessoa, peça um conjunto auxiliar, faça exercícios para lidar melhor com o(s) conjunto(s) da pessoa ou use -/-/- ("sintaxe neutra").

Dicas finais para pessoas cujos conjuntos frequentemente não são respeitados

  • Quanto mais você indicar seu(s) conjunto(s) (por meio de perfis, buttons, camisetas, etc.), melhor.

  • Tenha alguma página de explicação, onde cada conjunto é demonstrado por meio de exemplos. Um guia para ajudar nisso pode ser encontrado aqui.

  • Mesmo seguindo as dicas anteriores, tenha em mente que a maioria das pessoas não se importa com sua linguagem pessoal, e acha que está certa ao presumir. Esperar que pessoas se deem conta de que podem estar erradas ou que as normas culturais mudem para que conjuntos neutros universais sejam usados para qualquer pessoa que ainda não disponibilizou sua linguagem provavelmente não vai dar certo.

  • Quanto mais tempo você esperar para introduzir sua linguagem e/ou corrigir pessoas em relação a ela, mais outras pessoas vão encontrar desculpas para não usar sua linguagem, e elas podem até não te levar a sério porque "antes tava tudo bem falar assim".

  • Muitas pessoas só respeitarão sua linguagem ao serem pressionadas. Não tenha medo de corrigir pessoas próximas em todas as oportunidades possíveis, se é o que você quer fazer.

  • Também não se sinta mal ao cercar pessoas que te maldenominam de pessoas que usam o conjunto certo (ou um dos conjuntos certos), e que não hesitam em corrigir cada erro.

  • Sua disforia relacionada com linguagem é válida (mesmo que você seja cis). Se você tiver que passar um tempo longe de quem te maldenomina, ou se você estiver desconfortável com maldenominação, isso não é algo vergonhoso, ridículo ou incomum.

  • Você não é uma pessoa ruim, confusa ou chata por ter um conjunto incomum, ter vários conjuntos, mudar de conjuntos frequentemente, querer conjuntos diferentes em situações diferentes, etc.

  • Ao apresentar seus conjuntos, é preferível que você não dê muitas opções, e que tais opções sejam organizadas. Por exemplo, em um crachá, pode ser melhor você colocar um ou dois conjuntos ao invés de oito ou dez, e tente organizar vários elementos em mais de um conjunto (por exemplo, coloque em seu perfil que você usa a/ela/a, -/ele/e, le/ile/e e u/elu/u ao invés de dizer que você usa a/u/le/ela/ele/elu/ile/e/a/u).

  • Tanto na fala oral quanto na escrita, outras pessoas não se corrigem se baseando no conjunto de linguagem que você está usando. Isso significa que eu acho relativamente seguro dizer que você é "ume alune" ao invés de "um aluno", por exemplo.

  • É verdade que elementos de conjuntos mais incomuns podem fazer com que seja mais difícil de alguém usar certo conjunto de linguagem, mas garanto que você não precisa se confinar a conjuntos como (ê, e)/elu/e ou -/ile/e só por serem mais espalhados/comuns. A maioria vai reagir com a mesma quantidade de confusão/raiva/etc. ao lidar com estes conjuntos em relação a conjuntos como y/ily/y, ze/elz/e ou i/ila/i. Então recomendo usar o que ficar mais confortável para você!