O esforço eterno pela independência da normalidade na internet

Um texto sobre o não lugar de quem não quer depender apenas de megacorporações para interagir na internet mas também não se encaixa noutros padrões da IndieWeb

A insistência na normalidade

Eu perdi a esperança na capacidade de autorreflexão da maioria das pessoas quando estas pararam de usar máscaras em massa dentro de espaços fechados e declararam que “acabou a pandemia” por ter acabado a quarentena mesmo com os números de infecções não diminuindo drasticamente.

Entendo que há pessoas com dificuldades reais acerca do uso de máscaras: pessoas que tinham que escolher entre máscaras inefetivas e que machucavam; pessoas com questões sensoriais sérias acerca do uso de máscaras, incluindo alergias a tecidos; pessoas sem dinheiro para usar máscaras de forma consistente e que garante sua efetividade; etc. Também entendo que máscaras são incompatíveis com certas atividades, como comer ou praticar atividade física intensa.

Mas a quantidade de pessoas sem máscaras em espaços fechados onde suas bocas não são necessárias não é coerente com exceções feitas por questões de acesso financeiro ou problemas sensoriais. E as repetidas instâncias de condições similares a festival flu quando pessoas vão viajar a trabalho ou voltam de eventos cheios de gente de todo canto indicam, ao menos para mim, que sair de máscara em mais circunstâncias (e trocar a máscara por uma nova/lavada depois de algumas horas de uso) resultaria em menos circulação de resfriados e gripes.

Mas, não! A atitude normal é a de não sair de máscara, e, portanto, a atitude ideal passa a ser não sair de máscara. Pessoas se sentem até ameaçadas por outras pessoas tomando esta simples precaução pelo bem de suas saúdes: eu e outres que andaram comigo de máscara já passamos por chacota e comentários ofensivos na rua; vários comentários negativos sobre apresentações de My System da FELICIA que vi por aí eram sobre “a máscara ser desconfortável por lembrar da pandemia” ainda que seja só uma rendinha com um resultado visual praticamente transparente e não uma referência forte a um acessório médico.

Muitas vezes sou ignorade quando falo sobre como “ofensas genéricas” muitas vezes são referências a neurodivergências ou outras questões similares. Eu também venho de um contexto onde já tinha noção de que a maioria das pessoas não requer apenas informação sobre práticas inclusivas ou éticas para aplicá-las no futuro. Então até posso imaginar a pergunta: o que houve de tão diferente em presenciar a queda de frequência do uso de máscaras em público?

A questão é que o uso de máscaras é benéfico mesmo para a própria pessoa que a utiliza (fora os casos mencionados). É diferente de formas de conscientização que só beneficiam outros grupos, especialmente grupos menores que podem ser descartados ao almejar um “público geral”. Qualquer preocupação estética com o uso de máscara pode ser adaptada por meio de formatos, cores e estampas diferentes: o motivo destas possibilidades não terem sido muito desenvolvidas foi a pressa para “voltar ao normal” após algumas vacinas.

Enfim, talvez seja a influência das redações em vídeo (videorredações?) que gosto tanto de assistir, mas na verdade este texto não é sobre saúde física, e sim sobre plataformas digitais.

Como é que tem gente que ainda gosta do Instagram?

Eu entendo completamente que há pessoas com atividades comerciais ou informativas que dependem do Instagram, naquele círculo sem fim de pessoas dependendo de uma plataforma ruim por ser popular e a plataforma ser popular por existirem muitas pessoas dependendo de tal plataforma. Em Seja queer, faça um site, eu proponho que pelo menos seja feito o esforço de também ter um espaço próprio em adição a um perfil em rede social corporativa. Eu dou exemplos de sites não necessariamente desconhecidos ou que requerem conhecimento profundo para começar o próprio projeto, como Carrd e WordPress.com, e também de outros serviços mais independentes mas que considero mais interessantes, como Nekoweb (que requer no mínimo conhecimento de HTML… ou de como providenciar um arquivo apenas composto por texto) ou Flarum (um fórum que precisa ser instalado na própria máquina com um design que acho bastante agradável).

Mas, mesmo que eu não veja ninguém defendendo o Instagram — sim, há anúncios demais; sim, há muito discurso de ódio e ele pode ser recomendado pelo algoritmo; sim, o único jeito de ter certeza se alguém publicou algo é ir em seu perfil porque publicações não são mostradas na ordem e podem ser aleatoriamente enterradas — também há poucas organizações e pessoas se esforçando para serem independentes da plataforma. Vejo pessoas fazendo ou querendo fazer conteúdo para o Instagram mesmo quando ele não oferece formatos ideais para fotos que requerem alta qualidade, textos ou vídeos, com pouca ou nenhuma consideração por pelo menos reproduzir o próprio conteúdo em outros lugares.

Vejo projetos surgindo no Instagram focados em eventos sem links externos para sites, blogs ou plataformas de eventos: por exemplo, radar.squat.net, plataforma de eventos gratuita e independente, tem no momento de escrita 18 eventos marcados no Brasil inteiro (um pouco mais de um terço em comparação com os 45 eventos argentinos) e 31 grupos registrados (um número comparável aos 32 grupos da Tchéquia, país com população menor do que a cidade de São Paulo), sendo 11 dos grupos de Porto Alegre. Enquanto isso, os únicos eventos abertos e não comerciais na cidade de São Paulo para os quais sei que existem divulgações fora do Instagram são os do Centro de Cultura Social e da Casa 1, além dos de Qósmiques, obviamente. Nix Diversidade tem vários contatos de ligas de esporte, mas nem todos os horários de treinos ou links para inscrição estão disponibilizados fora do Instagram.

Múltiplas Identidades é o único projeto que conheço que teve a iniciativa de migrar completamente para fora do Instagram. Há algumas publicações para o Orientando.org que faço no modelo do Instagram que são reproduzidas em seu blog e em sua conta no Tumblr, mas não vejo muites outres fazendo esforços similares. Conheço apenas esta postagem e pessoas que se dão o trabalho de fazer material diferente e não completamente intercambiável entre as duas versões, como Ace In Grace e algumes artistas musicais. Mas isto ainda é um acontecimento muito raro: não existem referências externas do material publicado na Rede NB+, em neolinguagem ou por Serafim Lissa Koga em outros locais.

Só que ficar no Instagram para conferir material educativo ou sobre eventos não funciona (a não ser que eu faça uma lista de perfis manuais em um arquivo e confira cada perfil separadamente por novidades). Eventos muitas vezes só aparecem para mim em cima da hora ou quando já passaram, e material educativo muitas vezes é raso e não traz referências externas (parcialmente por conta de limites impostos pela própria plataforma). A falta de referências externas/prévias também acaba incentivando publicações repetitivas com informações básicas, as quais muitas vezes são simplificadas a ponto de cometer equívocos ou promover falsidades. Eu já vi uma publicação falando que exorsexismo vem da “raiz exo”, sendo que a informação sobre de onde vem a palavra está disponível online . As pessoas não-binárias fazendo imagens em 2026 insistindo que a não-binaridade é sempre trans como se estivéssemos em 2015 não estão em conversa com as várias comunidades não-binárias (e intersexo) onde modalidade de gênero é tratada como um tema mais aberto do que “quem não é cis é trans” ou “quem não é trans é cis”. Quase todes que falam sobre o tema da neolinguagem que não fazem parte do meu círculo insistem nos termos “linguagem neutra”/“linguagem não-binária” e em usar pronome/de + pronome para exemplificar conjuntos de linguagem, e elu tende a ser o único neopronome presente, criando uma falsa sensação de domínio do assunto nes leitóries, a qual acaba prejudicando pessoas como eu.

Coincidentemente, no dia que escrevi esta parte do texto, ume amigue me contou sobre uma definição de uma identidade não-binária que escrevi no Orientando ser supostamente inacessível demais a alguém sem contato com o assunto para publicar numa conta de Instagram sobre não-binaridade sem uma redefinição reducionista. Esta mentalidade ilustra muito bem o problema: para alcançar mais números, há a (suposta) necessidade de tratar toda a audiência como não só ignorante mas também incapaz de pesquisar sobre o assunto por si própria (vendo algumas perguntas em comentários por aí, admito que às vezes isso até é verdade). Algumas das pessoas que se identificam com o termo podem se sentir alienadas por sua redefinição, mas o que importa é sempre “atingir” uma maioria “mais normal”, e não se preocupar com como alguém do grupo minoritário sendo descrito pode se sentir vendo um termo que usa para seu gênero ser redefinido para ser mais palatável. Aliás, por que parar aí? Pessoas “normais” não entendem de gênero mesmo: toda publicação sobre não-binaridade não deveria conter uma explicação sobre a diferença entre sexo, gênero imposto, modalidade de gênero e identidade de gênero para não confundir ou alienar ninguém? Eu tenho o privilégio de poder linkar páginas como Não-binárie, Lista de modalidades de gênero, Vocabulário usado em círculos NHINCQ+ inclusivos e Respostas completas para dúvidas complexas sobre ser xenogênero, e confiar que quem quiser saber mais sobre um assunto vai clicar neles ao invés de entrar em contato para que eu repita informações que já escrevi e disponibilizei. Mas aí eu não faço números, ao menos não em uma sociedade onde a incuriosidade é normalizada.

Eu já conversei com outres que também tentam ou tentaram educar um público mais amplo sobre questões de justiça social no Instagram, e tendemos a concordar que os engajamentos de lá tendem a ser só números, sem nenhum retorno perceptível. Pessoas “curtem” publicações denunciando uma determinada postura como exorsexista, mas seguem perfis que tomam tal postura em toda publicação e também dão curtidas em suas publicações. Eu sempre publico sobre os eNBontros no Instagram, e sempre recebo várias curtidas — inclusive de gente não-binária que mora na mesma cidade que eu — mas as pessoas que vão ao evento são as que o conheceram via amizades, indicações em espaços físicos, Reddit ou ABRANB, nunca pelo Instagram. Pessoas curtem publicações denunciando termos que elas tomam como problemáticos e não deixam de usar tais termos. Qual o ponto, então?

Isso sem contar que eu não tenho paciência para ficar vendo um monte de propagandas e discursos de ódio que ficam ocupando minha tela inteira. Às vezes encontro uma ou outra coisa interessante, mas prefiro ocupar meu tempo em um feed RSS curado ou no fediverso. E é uma pena que outras pessoas tenham uma preferência tão pesada para estas experiências majoritariamente porque suas amizades talvez apareçam em suas linhas do tempo.

As “alternativas” dúbias

Quando pessoas sentem vontade de ir além de redes sociais com formatos engessados de publicação, o que ainda presencio é, na maior parte, a guinada para Tumblr, Substack e Medium. Plataformas com problemas que vão de dickovers, uso de IA para “detectar IA e paredes de log-in não necessariamente decididas por usuáries até decisões irregulares de moderação e políticas extremistas de liberdade de expressão. Espaços que ao menos podem cumprir requisitos básicos como sistemas de tags e acessibilidade sem login, mas que muitas vezes já são tratados como “plataformas alternativas ideais por oferecerem mais controle e menos anúncios aes sues usuáries” em comparação com X e Instagram.

Fazer um blog “saiu de moda”, é o que muita gente diz. Não entendo como um formato de publicação online possa “sair de moda” sem que a internet inteira saia. Modelos prontos para blogs não são mais inacessíveis a celulares. Blog não significa ter um layout de três colunas com vários módulos indicando informações sobre a autoria, nuvem de tags, histórico de publicações e blogs recomendados, e, mesmo que significasse, não entendo o grande problema de ter uma navegação que não dependa de uma série de menus escondidos se ela estiver em uma tela grande o suficiente para mostrá-los.

O que aconteceu é quem produz textos agora tende a ter que ou encaixá-lo em moldes de Instagram ou TikTok ou colocá-lo em uma plataforma que se justifica como “além de um blog”. Substack especializa em inscrições por e-mail, um formato considerado mais antigo do que um blog, mas que “voltou à moda” porque pessoas não usam mais Twitter para acompanhar lançamentos em blogs e desaprenderam (ou ninguém nunca as ensinou) a usar a função de favoritos do navegador e/ou leitura via RSS. Medium e Tumblr são “blogs sociais” com curtidas e funções de seguir e ver publicações populares, enquanto Patreon e afins servem para quem quer monetizar suas publicações. Além do Tumblr, todas estas plataformas ganharam a reputação de serem “mais profissionais” do que Blogger, Wordpress ou qualquer pessoa dizendo que tem um blog ao invés de uma newsletter ou uma “página” (sendo que o que querem dizer com “página” é um perfil em uma rede social, não um documento personalizável: personalização virou uma infantilidade do passado, porque o normal é deixar grandes empresas decidirem os formatos e estilos de cada texto).

Na realidade, nenhuma dessas plataformas exige profissionalismo, até onde sei. Não acho que já soube de contas sendo deletadas por textos de baixa qualidade. Todos esses textos poderiam estar sendo publicados no Blogger ou no Tumblr (bom, com a exceção daqueles que as pessoas querem que sejam pagos). Nesses tempos, eu vi alguém falando algo como “as pessoas querem fazer publicações de blog, mas não querem fazer isso em um local que entendam como um blog”, e é este um dos grandes problemas atuais com quem decide publicar textos longos e acaba optando por uma plataforma de estética corporativa gerenciada por uma empresa buscando o lucro.

Pessoas que dizem “não dependerem mais de redes sociais” não necessariamente estão livres do pensamento normativo sobre quais são as formas ideais de se comunicar e informar pela internet.

A falta de referências/links relacionados normalizada por redes sociais convencionais também parece afetar muitas dessas pessoas que migram para textos mais longos em outros ambientes. Muitas pessoas que escrevem textos na lusosfera não usam links nem para refefenciar textos que já escreveram e nem textos (ou vídeos/podcasts/páginas) de outres autóries; no máximo referenciam estudos acadêmicos ou sites de notícias quando citam dados divulgados por estes. Em certos casos, eu me pergunto o quanto estas pessoas sequer leem textos (ou foram atrás de outros tipos de mídia) sobre o mesmo assunto feitos por outras pessoas, ou se só presumem que são as primeiras pessoas a falar disso porque só dependem do que é impulsionado por redes sociais convencionais (e, quando aplicável, seus círculos acadêmicos) para determinar se alguém já dissertou sobre determinada experiência.

Organizações tendem a ser integradas fortemente com Google e Meta para formulários, aulas, confirmações e socialização. ABRANB usa Telegram (que também não é uma boa alternativa), mas praticamente todos os grupos não-binários gerais que tenho são no WhatsApp, um aplicativo que também sou obrigade a usar para confirmar e ocasionalmente até marcar consultas médicas. Noutro dia tive um problema com alguém me enviando um documento privado via Google não sabendo que o e-mail que eu providenciei teria que estar ligado a uma conta do Google para que isso funcionasse. Novamente, é um problema onde se presume que todes estão confortáveis com serviços centralizados. Eu consegui pular a era onde ter uma conta de Facebook era “o que todo mundo tem” sem uma conta no site, mas agora as expectativas para estar presente em outros serviços piorou bastante.

Quase toda vez que proponho Jitsi para videoconferências — uma plataforma que não vende dados de suas conferências, não guarda dados a longo prazo e não requer que todes tenham contas no serviço (embora a pessoa que administre precise logar via algum serviço externo) — há alguém com um problema arbitrário que impede ou deveria impedir o uso do serviço pelo grupo inteiro (ou alguém fica dando alfinetadas sobre um programa menos ético ser mais funcional). Se o problema de alguém é com Zoom ou Google Meet, porém, o problema é individual, e não apaga os méritos do software. Tirar sarro do Jitsi ser ruim é normal porque é um “programa alternativo esquisito”, tirar sarro do Google Meet não é aceitável porque usá-lo é o normal para a maioria.

Muitas das organizações que se gabam sobre irem além de uma conta no Instagram e um grupo no WhatsApp caem nestes e em outros buracos: uso de IA generativa porque não entendem o que há de errado nisso e não conseguem atrair pessoas que sabem o quanto isso pega mal; uso de GMail mesmo que eu esteja vendo cada vez mais administradóries negando cadastros com GMail em suas plataformas ou pessoas filtrando e-mails do GMail por conta do spam; comunicação e disponibilização de informações via Discord quando deveriam ser fóruns e wikis; uso do Linktree.

E é praticamente impossível falar com a maioria das pessoas sobre isso, porque elas não consideram que vão ser atingidas negativamente por decisões corporativas enquanto for normal usar ferramentas com falhas de segurança perigosas que fortalecem espionagem do governo estadunidense e de grandes empresas e fortalecem a estética fascista da IA generativa. É normal ser ignorante sobre tecnologia, então pra quê aprender sobre alternativas menos problemáticas?

O outro lado

Muitas pessoas realmente são incuriosas, insistentes na normalidade imposta por bilhonáries ou a favor de grandes empresas poderem fazer o que quiserem. Mas também há as pessoas que se sentem sem poder ir para lugar algum, que não têm acesso a alternativas por outros motivos, desde falta de informação (e de saber como ir atrás de tal informação) até a questão das alternativas serem carentes de funções que estas pessoas consideram cruciais.

Tipo, ok, se alguém tem uma loja e só tem tempo de atualizar um local fora o local onde é gerenciado o inventário da loja, pode fazer mais sentido investir no Bluesky ou no Instagram do que num servidor de Mastodon independente. Se alguém quer reunir o máximo de pessoas libragênero possíveis para um grupo de convivência, é provável que o WhatsApp seja mais viável do que o Matrix. Se uma empresa obriga sues funcionáries a usar IA generativa, eu não vou julgar quem preferir manter seus empregos e compactuar com a autosabotagem da empresa a ficar sem emprego só para poder se gabar de nunca usar IA generativa.

Novamente, o problema não é simplesmente o uso de certos serviços, e sim a insistência de que o único jeito correto de existir é o que se alinha com interesses bilhonários ou mal intencionados. O jeito que prega confiança única e total em serviços fechados e centralizados, mesmo quando informações que deveriam ser públicas são expostas somente em locais pouco acessíveis que podem ser extintos, comprometidos ou abandonados, e informações que deveriam ser privadas são vendidas entre empresas de anúncios. Que um rumor ruim sobre o fediverso é motivo para nunca ver o que há por aqui, mas múltiplos fatos ruins sobre o Instagram são ignorados por quem continua tendo motivos para frequentar a rede.

Há empecilhos reais no caminho de migrar parcialmente ou completamente para serviços mais éticos. O problema é exagerar tais empecilhos para justificar nunca sair da própria zona de normalidade.

Enfim, aqui estão algumas coisas que provedóries de alternativas mais éticas poderiam fazer:

Chamar mais tradutóries

Muitos aplicativos possuem traduções ruins, parciais ou inexistentes para a língua portuguesa, o que prejudica o entendimento de interfaces por pessoas com nível básico ou nulo da língua inglesa. Traduções ruins também podem prejudicar a experiência, e estas estão cada vez mais comuns com o crescimento na confiança em traduções automatizadas.

Pessoalmente, eu não me importaria em contribuir e chamar outras pessoas para contribuir, mas apenas se isso significasse não utilizar linguagem genérica mascunormativa ou exorlinguista no projeto e o projeto não aceitar contribuições futuras que “corrijam” tais esforços. Eu não me importaria em usar o conjunto -/-/- como genérico dentro de um contexto de traduzir interfaces (embora prefira normalizar alguma forma de neolinguagem como genérica, mesmo uma não escolhida por mim), mas precisa haver o comprometimento de que tal linguagem é proposital e não intercambiável com o(a)/ele(a)/o(a) ou o/ele/o quando outras pessoas estiverem desinformadas ou com preguiça.

Entender o público-alvo

Já presenciei muitas lamentações sobre só pessoas na área da tecnologia se importarem com tecnologias éticas. Porém, o problema é que as vantagens de tais tecnologias são muitas vezes ignoráveis ou incompreensíveis para usuáries com a necessidade de serem normais. O projeto Mastodon tende a se divulgar como “a rede social que não está à venda” e uma alternativa federada de código aberto ao X/Twitter: obviamente pessoas que vão parar lá e optar por servidores de uso geral como mastodon.online ou mas.to fazem isso por precisarem urgentemente de uma rede alternativa ou por estarem interessadas no que essas tecnologias mais recentes podem construir. Enquanto isso, servidores como colorid.es (tecnicamente Hometown, não Mastodon) e mastodon.art declaram seus nichos específicos (pessoas queer e artistas, respectivamente), e conseguem formar comunidades menos focadas em tecnologia e mais interessantes como espaços alternativos para membres desses grupos.

Pessoas que são interessadas unicamente em números não vão se interessar em nenhum desses quatro servidores. A falácia de que “é possível se comunicar com todos os servidores do fediverso de qualquer servidor” só cria falsas expectativas que terminam em frustrações: o fediverso não é frequentado por tantas pessoas em comparação com o Instagram, e qualquer servidor que presta bloqueia servidores com problemas de spam, material que mostra abuso de crianças, assédio e assim por diante, sendo que isso pode incluir o bloqueio de servidores onde também há mais pessoas de forma geral. “Somos uma comunidade alternativa para este grupo que não é centralizado em outros locais” é uma chamada mais atraente do que “somos uma comunidade livre para todes e juramos que há pessoas de todos os interesses aqui” (especialmente se a pessoa entrar e não achar ninguém ative falando sobre seus próprios interesses).

Considerar moderação e fragmentação como forças positivas

Muitas pessoas construindo plataformas alternativas presumem boa fé de outras pessoas interessadas. Na realidade, existem stalkers que não se importariam em seguir suas vítimas para redes sociais alternativas, pessoas buscando redes alternativas para disseminar discursos de ódio, nazistas que querem espaços para se reunir sem que seus avatares com suásticas sejam motivos para banimento, sites de aposta criando múltiplas contas apenas para linkar seus sites e assim por diante. Portanto, plataformas que “maximizam a liberdade pessoal” ou que são construídas de forma que dificulta banimentos ou aprovação manual de contas não são ideais na maioria dos casos.

Uma crítica comum a espaços que são menos conectados ou mais moderados é, porém, a inabilidade de “chegar em todo mundo”. E eu diria que este é um problema causado pela fixação em normalidade: em teoria, uma publicação de Instagram pode ser recomendada a todes que usam o aplicativo, ou ao menos que tenham mostrado interesse em publicações similares. Na prática, algoritmos de popularidade valorizam publicações controversas (com vários comentários discordando) ou superficiais (sem nenhuma informação ou que não fale nada que pessoas interagindo já não soubessem). Num espaço onde há menos interações, uma publicação pode ser mais vista dentro da rede por permanecer por mais tempo nas linhas do tempo cronológicas alheias. Porém, ele não trará a ilusão de que a publicação poderá ser vista por uma parcela gigantesca da população mundial.

Quando eu falo sobre exorsexismo, exilinguismo, alossexismo, capacitismo ou afins em colorid.es, eu adoraria presenciar estas informações serem absorvidas por pessoas que existem para além do meu círculo. Porém, isso não acontece: a maior parte da população não se importa com tais questões. Há algumas pessoas que usam o sufixo -misia ao invés do sufixo -fobia ou que adotaram o modelo artigo/pronome/final de palavra por minha causa, mas tais comportamentos são a exceção, e não a regra. E isso não é uma questão de eu não ter audiência o suficiente, e sim do quanto as pessoas estão dispostas a refletir se minhas sugestões fazem sentido. Eu sei que no Instagram e TikTok a questão não é muito diferente pelos relatos de pessoas que concentram seus esforços por lá.

A parte da população que muda suas posturas ao encontrar informações sobre elas serem nocivas para determinados grupos não é equivalente à população que é ou poderia ser alcançada por uma publicação. E a mesma coisa vale para quaisquer outros objetivos de redes sociais, como compartilhar arte ou fazer amizades. Ninguém mantém milhões de amizades ou se importa com esta quantidade de gente como indivíduos: a ideia de que a quantidade de usuáries de uma plataforma é proporcional a quantas pessoas se importam com o que ume usuárie de tal plataforma tem a dizer é falaciosa.

Por isso também que sugiro aceitar quando determinados servidores do fediverso não federam entre si, ao invés de considerar isso um problema a ser resolvido. Alguns servidores colocam assédio baseado em discordância de opinião como construtivo, outros têm uma postura antiassédio firme: as pessoas confortáveis em cada espaço não precisam se comunicar entre si, e quem faz questão de se comunicar com os dois lados pode ter contas em ambos os espaços ou em um terceiro espaço neutro à questão. A incompatibilidade não deixa de existir em um espaço centralizado, ela só é mais estressante.

Facilitar o onboarding técnico

No caso de iniciativas que vão além de fazer uma conta em um serviço alternativo, são necessárias rampas melhores para entender detalhes técnicos. A maioria das pessoas que vêm falar comigo sobre “fazer um site” não sabem nem que domínio (o endereço alugado do tipo amplifi.casa ou colorid.es) é diferente de servidor (o computador que mantém software e banco de dados). Tem gente por aí com medo de mexer com HTML, algo que aprendi a fazer antes da puberdade, como se 90% de mexer com isso não fosse Markdown com passos a mais.

Mexer com HTML/CSS básico deveria ser tão comum e normalizado como já ter mexido num editor de vídeo qualquer para publicar em uma rede social ou em uma aplicação para um programa.

Facilitar o onboarding social

Espaços como fóruns e servidores pequenos do fediverso não são apenas especializados, mas também comunitários. Redes sociais comerciais treinam pessoas para se expressar da forma que quiserem, com formas exageradas ganhando mais atenção. Já espaços mais focados em construção de comunidades são mais regrados do que “não faça coisas ilegais ou que causem problemas para monetização”, e pessoas que publicam conteúdo com pouco esforço, desconexo ou que pode ser incoerente com como o espaço é tematizado podem ter suas publicações ou contas trancadas ou deletadas.

Redes sociais também treinaram pessoas para ignorar as regras, por (no caso de plataformas gerenciadas por grandes empresas) muitas vezes serem documentos genéricos e longos, enquanto espaços menores que são abertos mas mais restritos com o que é permitido podem sentir a necessidade de usar menos linguagem formal mas explicitar determinadas demandas que podem não ser óbvias para quem veio do X ou Instagram.

Espaços sociais alternativos com valores éticos até tentam usar “moderação mais bem feita” como marketing, mas é difícil acostumar usuáries de redes corporativas com questões como bom senso e etiqueta. Por exemplo, um tópico tirando sarro do layout personalizado de um fórum sem dar nenhum comentário construtivo obviamente não vai ser bem recebido por quem criou o layout ou pela equipe do fórum em geral: pode ser normal alguém ter esse comportamento em um perfil de internet usado como diário pessoal dentro de uma rede social que não tem moderação ou em um bate-papo exclusivo a amizades, mas, em um espaço em comunidade com quem criou o layout, tal comportamento é inapropriado. Isto não significa que a opinião pessoal é proibida ou que há policiamento de tom envolvido, apenas que o local tem mais rigor sobre se a publicação da opinião é necessária e sobre como um argumento convincente pode ser construído caso ela seja considerada necessária.

A mesma coisa vale para regras determinando assuntos que requerem avisos de conteúdo ou que são proibidos, ou requerimentos de acessibilidade (como descrições em todes es áudios/imagens/vídeos): a questão não é necessariamente “a comunidade desaprova de todes que não se expressem somente de tais formas e sobre tais assuntos sob quaisquer circunstâncias”, e sim que o propósito da comunidade é ser um espaço de socialização e/ou discussão (geralmente formado em torno de determinado assunto separado) acima de ser um espaço para pessoas falarem o que quiserem da forma que quiserem. A preocupação com o acesso mais amplo à comunidade é colocada acima da ilusão de autenticidade. E isto nem sempre é comunicado.

Quebrar o mito do everything app

É possível notar que falei de algumas coisas separadas aqui:

  • Locais para produzir textos ou outras formas de mídia que requerem espaço na tela;
  • Espaços para participar de discussões na internet;
  • Espaços para disseminar informações sobre eventos;
  • Espaços onde é possível realizar videoconferências.

Tem gente que adoraria um local só para tudo isso. Eu entendo a ideia por trás de ter menos contas para lidar, mas a busca pela minimização acaba por:

  1. Fortalecer iniciativas de grandes empresas, as quais tendem a ter mais recursos para desenvolver aplicativos/sites que cumprem múltiplas funções. É o objetivo das plataformas da Meta, do Discord, do X e do Google maximizar o tempo que as pessoas ficam em suas plataformas, então seus produtos tendem a incluir mais funções.
  2. Gerar o problema de “todos os ovos em uma única cesta”: alguém só usa Discord para contatar sua comunidade? Bom, se ele for subitamente adquirido e fechado, já era sua comunidade. Mesma coisa se a conta da pessoa for banida.
  3. Impor inacessibilidade total a quem está de fora: uma pessoa que só usa WhatsApp não poderá ser contatada por alguém que não usa WhatsApp (por ter o aplicativo monitorado pela família ou ter sido banide, por exemplo).
  4. Fortalecer uma cultura de incuriosidade: se há um software novo de rede social, bate-papo ou afins, mesmo quando é fornecida uma razão para experimentá-lo, a reação tende a ser “só vou considerar usar quando muita gente migrar pra lá”, e não “vou dar uma olhada em como é”.
  5. Causar a falsa sensação de que todo mundo está naquele lugar. Muites com Discord acreditam que todes com determinado interesse têm conta no Discord, muites com Instagram acham que todas as pessoas usam Instagram diariamente e assim por diante. Esta impressão pode ser quebrada navegando por outros espaços.

Isso significa que eu defendo ter uma conta em cada serviço? Não. Mas acho que desenvolver espaços especializados é importante quando alguém ou alguma organização quer se dedicar a determinado tipo de informação. Quem realiza eventos frequentes deveria ter uma conta atualizada em alguma plataforma de eventos, quem quer organizar várias informações deveria considerar ter uma wiki ou um site, quem quer escrever textos deveria considerar uma conta em uma plataforma de blogs/histórias ou ter o próprio site. Além disso, é possível ir atrás de informações sobre uma plataforma antes de fazer uma conta nela, e apagar contas que não serão mais utilizadas.

Rejeitar o mito do “passado glorioso” (e de quem usa serviços alternativos só pensa nisso)

Múltiplos manifestos e textos opinativos sobre problemas modernos da internet — algoritmos de sugestão nocivos, IA generativa, criptomoedas, NFTs, inscrições pagas mensalmente, troca de sites e fóruns públicos por grupos de Discord e contas de redes sociais, etc. — valorizam a Web 1.0, a ideia de todes terem sites pessoais leves com código escrito manualmente, decisões de cores/fundos/layouts que devem ser esteticamente agradáveis primariamente por quem as construiu e assim por diante. E, tudo bem, não há problema se algumas pessoas optarem por estas decisões estéticas para seus espaços pessoais. Mas entendê-las como um ideal do que faz um site ser realmente pessoal/livre de influências corporativas cria expectativas desnecessárias do que significa ter um site próprio.

Tradução de um trecho daqui:

(…) coisas retrô são legais, todo mundo fica nostálgico. mas uma página inicial de repente rejeitando o acesso de dispositivos móveis não é algo a se almejar. (…) no meu tempo a gente tentava fazer nossas coisas o mais utilizáveis possível e estávamos construindo para 800x600 pixels, não 1920px. mínimo denominador comum e tudo mais.

Se uma pessoa decidindo que sua página deve ter um fundo neon e ser otimizada para monitores grandes e uso de mouse, outra pessoa decidindo que sua página deve ser otimizada para quem está com JavaScript ligado e não se importa em seus dados móveis estarem sendo utilizados para baixar três bibliotecas que compilam para JavaScript também só está exercendo a própria liberdade com o objetivo de atingir determinada estética. Ambas podem ser decisões irritantes para outras pessoas acessando a página.

Ferramentas de comunicação que não são e-mails, fóruns ou caixas de comentário também não devem ser descartadas como males modernos. Algumes colocam todas as redes sociais e plataformas de bate-papo no mesmo saco: tudo bem não ter interesse em utilizá-las, mas não há a necessidade de inferir que seus funcionamentos e suas culturas são todes iguais.

Eu sei que, muitas vezes, a valorização de uma forma de criar sites/existir na internet não significa a desvalorização de outras formas. Mas, ocasionalmente, eu percebo uma inferência de que todo site deveria estar tentando existir dentro de uma estética retrô e/ou sem JavaScript e/ou bibliotecas modernas, mesmo que ninguém reclame da implementação de ferramentas de acessibilidade.

De fato, acho que uma das formas que pessoas podem ser convencidas a fazer os próprios sites é demonstrar que um site não precisa nem se dobrar a um layout escrito por outra pessoa com o objetivo de funcionar para todos os assuntos e nem centralizar um sentimento de nostalgia que muitas das pessoas considerando ter o próprio site nem vão ter (por terem nascido nos anos 2000 e/ou não terem tido contato com a internet antes da centralização em redes sociais). E outro fator que pode ajudar é a demonstração de que há frameworks e outras ferramentas que podem ajudar quem não quer mexer com HTML/CSS/JS puro.

Esta questão também precisa ser aplicável aos assuntos considerados aceitáveis em espaços alternativos. Em múltiplos espaços, há a presunção de que pessoas precisam “ser elas mesmas” e que isso significa falar de acontecimentos banais em suas vidas pessoais e demonstrar que não são “monotemáticas”, que não estão se limitando a um aspecto específico de suas identidades ou práticas em seus sites/blogs ou suas contas em redes sociais alternativas.

Não há nenhum problema em alguém ter apreço ou nostalgia por sites ou contas pessoais que cobrem uma variedade de assuntos aleatórios. Também não tem problema alguém preferir fazer isso. Mas, pessoalmente, como pessoa autista gerenciando vários projetos, não tenho vontade de gastar minha energia falando do que comi hoje/do que joguei hoje/da situação do transporte público ou fazendo paredes de imagens bonitinhas de todes es minhes jogos, séries e livros preferides, não importa o quanto outres achem que eu seria uma pessoa mais real ou autêntica se eu fizesse isso.

Pessoalmente, eu também adoraria ver mais projetos colaborativos, e plataformas que facilitem tais projetos. Escritas produzidas por um grupo ou que são voltadas para serem apreciadas por um público geral não são necessariamente produções rasas voltadas para adquirir capital. E, falando nisso…

Considerar necessidades de profissionais autônomes

Algumas pessoas que curam espaços alternativos ou providenciam serviços de hospedagem parecem ter em mente que pessoas normais possuem ou devem buscar um trabalho que ocorre em determinados horários e gera um determinado salário suficiente para suas necessidades e que fora disso estas pessoas estão livres para não realizar atividades que arrecadem dinheiro, e que qualquer pessoa “monetizando” algum aspecto da “internet livre” ou mesmo se importando com números de visitas ou interações está sendo desnecessariamente gananciosa.

Isto pode resultar em medidas como “não são permitidos anúncios de serviços comerciais neste serviço” e/ou “não é permitido pedir dinheiro por meio de algo publicado neste serviço”. Ou mesmo em um ambiente onde pessoas que demonstram (ou aparentam demonstrar) preocupações com vendas ou popularidade são colocadas pelo resto da comunidade como “tóxicas” ou “contra o espírito da comunidade”.

Porém, as pessoas mais necessitadas de espaços abertos onde podem mostrar/divulgar seus trabalhos sem inacessibilidade para quem não tem conta em determinado espaço são profissionais sexuais, artistas independentes e outres provedóries de serviços. Pessoas que não podem simplesmente ser contratadas por uma empresa que paga bem com base em currículos e entrevistas e considerar redes sociais e sites pessoais como hobbies completamente separados.

Eu sei que há limitações que podem ter que ser consideradas por conta de legislações vigentes ou regras de quem está providenciando algum dos computadores envolvidos (por exemplo, alguém que hospeda seus serviços usando Wasabi ou DigitalOcean, e não um servidor em sua própria casa). Isto é, nem todes têm a liberdade de dar aes sues usuáries liberdade total sobre o que podem publicar. Mas, para que exista uma internet separada das grandes empresas, há a necessidade de também existirem espaços para quem precisa ganhar dinheiro com seus trabalhos. E de não existirem julgamentos negativos sobre quem está “monetizando seu conteúdo” ou “agindo como influencer” por se preocuparem com retorno financeiro enquanto vivemos em uma sociedade capitalista.

Facilitar descobertas

Especialmente em um mundo onde alguém cria conta em uma rede social e é bombardeade com sugestões sem ter nem que pensar em como vai pesquisar pelo que lhe interessa, as ferramentas de descoberta da internet alternativa tendem a ser bem limitadas.

Diretórios de sites e blogs tendem a só incluir aqueles que são suficientemente construídos por conta própria, pessoais e minimalistas; redes sociais e fóruns independentes tendem a ser excluídes de diretórios de espaços alheios à centralização; etc. Eu acho que há lugar para estas granularidades, mas também acho que deveriam haver ferramentas que incluem recomendações mais robustas mesmo que “menos independentes” em relação a software e “menos pessoais” em relação aos seus conteúdos. Isto também ajudaria a ter uma variedade maior de pessoas e assuntos sendo representades.

E isto nem toca na questão de grande parte desta infraestrutura ser focada somente ou majoritariamente em recursos na língua inglesa. Este diretório é de sites brasileiros retrô, e… é isso. Não há uma lista por assunto de sites. Ok, é possível achar listas como “blogs brasileiros mais acessados” ou listas pessoais de alguém recomendando determinados sites ou blogs, mas nunca vi esforços comparáveis a ooh.directory ou indieblog.page focados em sites de língua portuguesa. Eu implementei um buscador no meu Raspberry Pi porque era o único jeito de ter um buscador alternativo que não retornasse somente resultados sobre a área da tecnologia e dentro da língua inglesa.

É importante incentivar pessoas a pesquisar pelo que elas se interessam, e não somente providenciar interesses populares, mas também é importante providenciar formas de pesquisar por tais interesses ou navegar até encontrá-los.

Que a preocupação com normalidade seja jogada fora

Em geral, pessoas com noções básicas acerca de discussões sobre justiça social entendem que o que é socialmente normal vem de ou tem associação com marcadores brancos, neurotípicos, ricos, hétero, cis, perissexo, conformistas de gênero, associados com homens e assim por diante. O livro Extra Bold contém trechos sobre até mesmo a questão do que significa ter um design “universal”/“neutro” tem um ponto de vista limitado:

Nos anos 1920, na Europa, designers defendiam que edifícios cúbicos, fontes sem serifa, imagens fotográficas e produtos funcionais podiam ser úteis e relevantes para pessoas de todas as nacionalidades e faixas de renda. Essas formas aparentemente neutras resistiam às ideologias nacionalistas e fascistas que colocavam uns grupos contra os outros. A despeito dos ideais igualitários do modernismo, porém, o conceito de soluções de design universais ou transnacionais presumiam um sujeito masculino, da Europa Ocidental.

É relevante apontar que isto não significa que tais padrões existem apenas por motivos mal intencionados ou que todas as pessoas que os adotam são más por fazerem isso. Novamente, se a renda de alguém depende do Instagram/TikTok/YouTube/Spotify/etc., minha intenção não é pressionar a pessoa a fechar suas contas em tais plataformas. As questões são:

  1. Plataformas que não têm o objetivo de gerar lucro não deveriam ser ignoradas ou alvos de chacota apenas por não terem ou quererem todes es usuáries possíveis;
  2. A aquisição de conhecimento básico necessário para domínio de plataformas alternativas não deve ser enxergada como um empecilho absoluto para quem tem interesse em tais plataformas, mesmo que nem todas as pessoas tenham tempo/paciência/capacidade de aprender tudo sobre elas;
  3. Existem, sim, empecilhos linguísticos, técnicos e sociais que dificultam a adoção de tecnologias mais alternativas, os quais, dependendo do caso, podem ser melhor trabalhados por pessoas envolvidas em divulgar tais tecnologias;
  4. Normas implícitas ou explícitas acerca de que tipos de expressões são alternativas o suficiente para serem levadas a sério fora de espaços corporativos também criam empecilhos técnicos e/ou sociais para que pessoas possam reduzir ou eliminar seu uso de plataformas convencionais.

Saiu de moda usar termos como compaixão, inclusão e problematização, então a substituição atual coloca ações como “normais”, “cringe” ou “de quem não tem amizades” (ou outros eufemismos para “anormal” associados com comportamentos ou existências considerades ruins). Isso quando a preferência não é pela apropriação mal feita de AAVE (como no uso de “based” como adjetivo). Não é incomum falar sobre pessoas sendo cissexistas no Tumblr de formas como “nossa, pessoas cis precisam ser mais normais quando dividem espaços com pessoas trans”, por exemplo.

Mas, por mais que querer normalizar que pessoas trans não sejam alienadas por perguntas ou atos inapropriados de pessoas cis seja um ótimo pensamento, o normal de sociedades eurocêntricas em geral é não entender bem como qualquer coisa funciona para uma pessoa trans: mesmo que uma pessoa normal não tenha a intenção de ser transmísica, sua incuriosidade normal fez com que ela nunca tivesse refletido antes sobre como funciona ter um gênero se ele não é definido pela genitália, sob quais circunstâncias faz sentido perguntar sobre informações como linguagem pessoal ou desenvolvimento corporal e assim por diante.

Por isso, eu não entendo a valorização da normalidade como coerente com a valorização da existência de diferentes modos de existir. Não acho que a palavra normal por si só precise ser evitada (assim como conceitos similares, como comum): mas quem é que é mais valorizade por “agir de forma normal”, “frequentar espaços com gente normal”, “usar tecnologias que pessoas normais conhecem”, “usar palavras que pessoas normais conhecem” ou assim por diante? Eu, pessoa anticapitalista, neurodivergente, poliam, lichtgênero e afins, não consigo pensar na normalidade como algo que me inclui. E eu também não consigo pensar nela como inclusiva de minorias culturais, religiões minoritárias, pessoas fora do padrão de beleza vigente, alterumanidade e assim por diante. Prefiro estar nos espaços que valorizam a criatividade, a curiosidade e a diversidade em comparação aos que valorizam principalmente uma quantidade maior de pessoas que se orgulham em ser normais.


PS: Este texto, e quaisquer outros publicados em plataformas independentes, só serão bem espalhados se houver polinização cruzada.